Há pouco mais de uma década, a pitaia era uma aposta arriscada para os agricultores do litoral catarinense. Fruta exótica, originária da América Central, com mercado incerto e sem base técnica consolidada no Brasil. Hoje, Santa Catarina projeta colher 7,6 mil toneladas da fruta em 2026 — um salto que não aconteceu por acaso. Por trás desse crescimento está um trabalho silencioso e sistemático de pesquisadores que, desde 2016, constroem o alicerce científico que a cultura precisava para se firmar como negócio real.
Parte central desse esforço acontece na Estação Experimental da Epagri em Itajaí (EEI), onde o entomologista Marcelo Mendes de Haro e o fitotecnista Alessandro Borini Lone formam a dupla responsável por transformar observações de campo em tecnologias aplicáveis. O trabalho deles cobre frentes complementares: Marcelo se dedica ao manejo integrado de pragas, e Alessandro lidera os estudos de melhoramento genético e produtividade. Juntos, eles respondem a perguntas que os produtores fazem diariamente.
O desafio de proteger uma cultura sem defensivos registrados
Quando o cultivo de pitaia começou a ganhar escala comercial, os problemas que vinham junto ficaram evidentes. Insetos, caracóis e formigas passaram a representar ameaças reais à produção, e os agricultores se viram sem ferramentas legais para combatê-los. Até hoje, praticamente nenhum defensivo agrícola tem registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para uso na cultura.
“Havia uma dificuldade muito grande na época porque tudo que se sabia sobre pitaia era baseado em literatura estrangeira. E pelo fato de não ter praticamente nenhum defensivo agrícola registrado no MAPA, a única forma de combater pragas é através da manipulação do ambiente e do controle biológico”, afirma Marcelo Mendes de Haro.
Esse contexto direcionou a pesquisa para um caminho que, de certa forma, acabou sendo mais robusto do que o convencional. O projeto “Manejo integrado de pragas de pitaia: desenvolvimento e implementação de tecnologias de produção orgânica”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa em Santa Catarina (Fapesc) e concluído em 2024, resultou no mapeamento de 19 potenciais pragas da cultura. O levantamento identificou 10 espécies de percevejos, três de besouros, duas de caracóis, dois grupos de formigas e ainda uma espécie de abelha-irapuá — esta última protegida por norma do Conama e que, por ser polinizadora, não pode ter seu ninho removido nem ser alvo de inseticidas.
Cada praga tem seu momento, cada dano tem sua lógica
Um dos achados mais práticos da pesquisa é a compreensão de que as pragas não atacam o pomar de forma aleatória. Cada espécie encontra uma janela de vulnerabilidade específica no ciclo da planta, e entender essa dinâmica é o que permite ao produtor agir de forma preventiva.
Os caracóis chegam primeiro, ainda nos brotos, e podem atrasar a maturidade do pomar em até três anos. Os besouros desfolhadores, conhecidos popularmente como vaquinhas, se alimentam do caule. As formigas se dividem em dois comportamentos distintos: a carpinteira cava o fruto no início do outono para fazer ninho, enquanto a cortadeira usa o caule para cultivar o fungo de que se alimenta. Os percevejos, que aparecem em maior número justamente porque migram das lavouras de grãos colhidas no início do ano — período que coincide com a safra da pitaia — se alimentam da seiva do fruto, do caule e do botão floral. “Eles não causam dano à polpa, mas deixam a fruta feia, afetando a viabilidade comercial”, explica Marcelo.
A presença maciça de percevejos tem uma explicação geográfica e produtiva clara: o litoral catarinense concentra tanto a produção de grãos quanto os pomares de pitaia, e quando os grãos são colhidos, os insetos migram em busca de novos hospedeiros.
Controle biológico: o solo, a adubação e as plantas que trabalham pelo produtor
A estratégia de manejo desenvolvida pela Epagri não é um protocolo de pulverizações. É, essencialmente, uma reorganização do ambiente produtivo para que ele próprio regule as populações de pragas. Três pilares sustentam esse modelo: cobertura permanente do solo, adubação equilibrada baseada em análise e uso de quebra-ventos estratégicos.
No verão, a recomendação é o plantio de amendoim-forrageiro entre as fileiras da pitaia. No inverno, um mix de aveia preta e branca, centeio, nabo-forrageiro e ervilhaca cumpre a função de manter o solo vivo e protegido. A adubação segue laudo técnico, e o produtor pode acessar o Kit Solo Saudável por meio de políticas públicas — duas cotas por produtor, no valor de R$ 3.150,00 cada.
Os quebra-ventos, que poderiam parecer uma medida meramente estrutural, funcionam também como armadilhas ecológicas. A recomendação é plantar hibiscos e manacás nas laterais da lavoura, cujas flores coloridas atraem as pragas para fora dos frutos comerciais. “Até bananeiras são úteis porque atraem insetos benéficos que são predadores das pragas”, revela Marcelo. A lógica é ampliar a biodiversidade funcional do pomar para que predadores naturais se estabeleçam no local e controlem as populações indesejadas sem intervenção química.
Da pesquisa ao campo: o trabalho de capacitação que chega ao produtor
Enquanto Marcelo conduz os estudos entomológicos, Alessandro Borini Lone — que fez mestrado e doutorado na Universidade Estadual de Londrina sobre cultivo de pitaia — mantém contato direto com os produtores de norte a sul do litoral catarinense. Desde 2016, os dois pesquisadores percorrem propriedades, participam de Dias de Campo e capacitam técnicos e extensionistas da Epagri em todo o Estado.
Essa presença de campo não é protocolo institucional. É o canal pelo qual as descobertas do laboratório chegam à mão de quem planta, e pelo qual as demandas reais dos agricultores retroalimentam as perguntas científicas.
O próximo passo: um cultivar genuinamente catarinense
Com o manejo de pragas avançado, a Epagri voltou a atenção para outro gargalo da cadeia: a falta de variedades registradas no Brasil desenvolvidas fora da Embrapa. Em 2025, Alessandro iniciou o projeto “Seleção de genótipos de pitaia para Santa Catarina”, que avalia 80 híbridos no banco de germoplasma da EEI. Ao longo de 2025 e 2026, 60 materiais já passaram pela primeira triagem, resultando na seleção de oito genótipos promissores.
“Esta primeira etapa de melhoramento genético é dedicada à busca por frutos de qualidade, com bom potencial de dulçor, tamanho, cor da casca e polpa e viabilidade econômica”, explica Alessandro Borini Lone.
Em paralelo, um novo projeto iniciado em 2026 em parceria com o melhorista Ramon Scherer, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), aprofunda essa linha de pesquisa. O trabalho prevê ensaios de produtividade no campo a partir da clonagem por estaquia e comparativos com cultivares comerciais já disponíveis — um passo decisivo para que Santa Catarina possa, no futuro, registrar seus próprios cultivares de pitaia no MAPA.
A ciência que sustenta a pitaia catarinense está sendo construída de dentro para fora: do solo coberto às plantas que atraem inimigos naturais, dos híbridos selecionados aos produtores capacitados. É pesquisa feita com os pés no chão — literalmente.




