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A tilápia sobrevive até em água de esgoto e isso é parte do problema nos rios do Paraná

Com 29 espécies invasoras catalogadas no Rio Tibagi, pesquisadores alertam para os impactos ambientais, econômicos e culturais da perda dos peixes nativos

Escrito por: Agronamidia Revisão: Derick Machado
26 de maio de 2026
in Agricultura
A tilápia sobrevive até em água de esgoto e isso é parte do problema nos rios do Paraná

Edson passou mais de cinquenta anos às margens do Rio Tibagi, em Jataizinho. Conhece cada curva, cada remanso, cada época do ano em que o peixe aparece. Nos últimos tempos, porém, ele percebe que o rio não é mais o mesmo. As espécies que sempre animaram sua rede — o pacu-rosa, o piau, o piauçu, a pirapara — estão rareando. O dourado, que já foi tão abundante que sua mãe pescava na beira do barranco, virou raridade.

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“Piapara tinha muito, diminuiu. Tinham vários peixes que diminuíram aqui depois da barragem. Dourado diminuiu bastante. Antigamente, minha mãe pegava dourado na beira do barranco. Hoje é coisa mais rara pegar um dourado aqui”, conta Edson.

O que ele descreve ao longo de décadas de observação está sendo confirmado pela ciência. Pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) já catalogaram 29 espécies invasoras apenas no Rio Tibagi, a maioria identificada nos últimos anos. O número é expressivo e serve de alerta para o que pode estar acontecendo em outras bacias do estado.

Um problema de três frentes

O avanço das espécies invasoras nos rios paranaenses não é um problema simples de categorizar. O professor Mario Orsi, da UEL, explica que o impacto se manifesta em pelo menos três dimensões distintas, que se alimentam mutuamente.

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“Primeiro, é o ambiente, o meio ambiente. Elas alteram o meio ambiente, competem com outras espécies nativas e até predam outras espécies nativas. E o segundo é uma questão social e econômica, porque há todo um problema que envolve a diminuição das espécies nativas por causa dessas invasoras. Afeta a pesca, afeta lazer, afeta a qualidade de água. São várias questões envolvidas”, afirma o pesquisador.

A dimensão ambiental é a mais silenciosa e, por isso, muitas vezes a mais subestimada. Peixes nativos não são apenas espécies com valor gastronômico ou econômico. Eles exercem funções ecológicas que sustentam o equilíbrio dos rios: controlam populações de insetos e larvas, contribuem para a qualidade da água e mantêm cadeias alimentares que levam décadas para se estruturar. Quando essas espécies são deslocadas por invasoras, o ecossistema inteiro paga o preço.

A tilápia como símbolo de um modelo equivocado

Entre todas as espécies invasoras presentes nos rios brasileiros, a tilápia se tornou o caso mais emblemático. Originária da África, ela foi amplamente incentivada pela piscicultura comercial por sua facilidade de criação, resistência e ciclo de produção rápido. O problema é que, uma vez fora dos tanques, ela se adapta a praticamente qualquer ambiente aquático — inclusive os mais degradados.

A tilápia sobrevive até em água de esgoto e isso é parte do problema nos rios do Paraná

O professor Orsi é direto ao avaliar o cenário: “A tilápia sobrevive até em água de esgoto. Até no Rio Tietê. Além disso, ela é uma espécie super fácil, perto de outras, para ser criada. A gente nem é contra a tilápia, a gente é contra a tilápia em água pública. Mas as nativas, gente, nós temos quase cinco mil espécies no Brasil, nativas. E que a gente poderia ter explorado com investimento público e hoje sermos uma potência em produção de peixe nativo brasileiro”.

A crítica aponta para uma escolha de política pública que privilegiou o curto prazo. O Brasil tem uma das maiores biodiversidades de peixes de água doce do planeta, com espécies como o barbado, o dourado, a curimba, o lambari e a piracanjuba — todas com alto valor comercial e cultural. O investimento pesado em tilápia, feito sem os controles necessários para evitar sua dispersão nos rios naturais, terminou por comprometer o potencial que as nativas poderiam ter representado.

O que os pescadores já sentem

Enquanto os dados científicos documentam a mudança, os pescadores do Tibagi vivem o impacto no cotidiano. Edson é claro sobre suas preferências: ele investe nos peixes nativos não por tradição nostálgica, mas porque eles têm qualidades que as espécies introduzidas não reproduzem.

“O peixe nativo do rio é mais saboroso. Pra comer, ele é mais saboroso”, diz ele, resumindo em poucas palavras o que pesquisadores descrevem em artigos: a relação entre biodiversidade, qualidade ambiental e valor cultural da pesca artesanal.

Além do impacto direto na atividade pesqueira, Edson aponta para uma oportunidade que está sendo desperdiçada. Com mais peixes nativos nos rios, o turismo de pesca teria condições de crescer — algo que ele já tenta construir localmente, levando grupos para pescar nos pontos que conhece. O modelo que admira é o praticado na Argentina com o dourado, onde a prática do pesca e solta transforma o peixe em ativo permanente de turismo, não em recurso esgotável.

O caminho possível

Pesquisadores da UEL mantêm lagos artificiais com espécies nativas em processo de preservação, entre elas o dourado, o barbado e a curimba. O trabalho é técnico e de longa duração, mas demonstra que é possível conciliar produção, conservação e aproveitamento econômico das espécies locais.

O que falta, segundo os especialistas, é justamente o que historicamente foi direcionado para as espécies exóticas: investimento público consistente, políticas de fiscalização da dispersão de invasoras e programas de incentivo à piscicultura nativa. O Brasil já fez esse movimento em outras cadeias agrícolas. No caso dos peixes nativos, a janela ainda está aberta, mas o avanço das invasoras estreita essa margem a cada ano.

Via: Reportagem originalmente publicada pelo Jornal Meio Dia Paraná.
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