Paulo Robson de Souza passou décadas estudando a natureza do Cerrado. Biólogo e professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, ele acumulou anos de trabalho de campo, com tudo que isso implica: sol, lama, insetos e a desenvoltura de quem já viu de perto o que a fauna brasileira tem de mais impressionante. Nada, porém, o preparou adequadamente para o que aconteceu enquanto fotografava formigas no Cerradinho da UFMS.
Ao se ajoelhar para conseguir um ângulo melhor, ele encostou sem perceber em um ninho de formigas-bala e a reação foi imediata.
“Foram três ferroadas que me derrubaram por cerca de 12 horas. Foi uma dor desesperadora”, relata Paulo Robson.
Uma questão de terminações nervosas
As ferroadas atingiram três pontos distintos do corpo: a perna, o braço e o dedo do pé. A distribuição não foi uniforme em termos de sofrimento. O dedo concentrou a dor mais intensa, e Paulo Robson, mesmo no meio do tormento, conseguiu identificar a razão fisiológica para isso.
“Regiões com maior concentração de terminações nervosas tendem a amplificar a percepção da dor. Por isso, áreas como os dedos são muito mais sensíveis do que regiões com mais musculatura”, explica o biólogo.
O alívio, quando vinha, era passageiro e dependia de uma única intervenção. “O único momento em que diminuía era quando eu colocava gelo. Fora isso, a dor vinha em ondas e não dava descanso”, lembra. A descrição de dor em ondas não é metáfora — ela tem uma explicação bioquímica precisa, que começa no próprio veneno do inseto.
Por que essa ferroada é diferente de todas as outras
A formiga-bala, cujo nome científico é Paraponera clavata, ocupa uma posição singular entre os insetos. Ela recebeu a pontuação máxima — 4+ — no Índice de Dor de Schmidt, escala desenvolvida pelo entomologista Justin Schmidt após comparar a intensidade das ferroadas de mais de 150 espécies. Nenhuma outra formiga chegou ao mesmo nível.
O doutor e mestre em biologia animal Luan Dias Lima, especialista na espécie, começa por um esclarecimento técnico que muda a forma de entender o mecanismo de ação do inseto. “A formiga não pica, ela ferroa. O ferrão é um mecanismo de defesa usado para injetar veneno”, explica. A distinção importa porque o veneno injetado, a poneratoxina, age de forma específica e implacável sobre o sistema nervoso humano.
A substância interfere diretamente nos canais de sódio das células nervosas, impedindo que o sinal de dor seja interrompido. O resultado é uma sobrecarga contínua: o corpo recebe estímulos sem pausa, como se o mecanismo de desligamento da dor simplesmente deixasse de funcionar.
“É como se o sistema nervoso ficasse preso em um estado contínuo de alerta, enviando sinais de dor sem interrupção”, descreve Luan. “A fama de ser a mais dolorosa do mundo vem justamente dessa capacidade de provocar uma dor intensa e prolongada, algo que poucas espécies conseguem”, acrescenta.
O que o corpo sente após a ferroada
Além da dor localizada e contínua, a ferroada desencadeia uma série de reações sistêmicas: inchaço, vermelhidão, suor excessivo, tremores e aumento da frequência cardíaca. Em muitas regiões do Brasil, o inseto é chamado de “formiga 24 horas” exatamente pela duração dos efeitos, que podem se prolongar por todo esse período dependendo da quantidade de veneno injetado e da sensibilidade individual.
Em casos de múltiplas ferroadas simultâneas, o risco aumenta. A ferroada isolada raramente representa perigo de vida para pessoas saudáveis, mas o maior risco real está nas reações alérgicas graves, incluindo choque anafilático. Crianças, idosos e pessoas com histórico de alergia exigem atenção redobrada e, preferencialmente, avaliação médica imediata.
O tratamento disponível é essencialmente de suporte. Afastar-se do local, lavar a região com água e sabão e aplicar gelo são as medidas mais eficazes no momento. Analgésicos comuns têm efeito limitado contra a poneratoxina, que age em uma via neurológica específica que esses medicamentos não bloqueiam completamente.
Entre a ciência e o ritual
A formiga-bala não é agressiva por natureza. Ela ataca apenas quando percebe ameaça direta, especialmente próximo ao ninho, exatamente o que aconteceu com Paulo Robson sem que ele soubesse. Fora dessa situação, o inseto cumpre um papel relevante no equilíbrio ecológico, atuando como predador de outros invertebrados em áreas de mata nativa.
A dimensão cultural do inseto é igualmente significativa. Entre os Sateré-Mawé, povo indígena da Amazônia, a formiga-bala — chamada de tocandira — ocupa o centro de um ritual de passagem para a vida adulta. Os jovens introduzem as mãos em luvas repletas de formigas e precisam suportar as ferroadas como prova de resistência e pertencimento ao grupo.
Paulo Robson, que passou 12 horas tentando lidar com apenas três ferroadas, não precisa elaborar muito para traduzir o que esse ritual representa em termos de suportabilidade humana. “Imagina a dor”, resume, com a concisão de quem viveu o suficiente para dispensar adjetivos.




