Natureza
Fruta-do-dragão na Amazônia: o cultivo que paga bem e cresce o ano todo
Propriedades nutricionais valorizadas pelo mercado externo e janela de colheita de quase 12 meses explicam a corrida dos produtores paraenses e amazonenses pela pitaya
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A pitaya brasileira saiu do nicho. Em seis anos, a produção nacional saltou de 1,5 mil toneladas para mais de 6 mil toneladas — um crescimento de 300% que nenhum grande portal de agronegócio consegue explicar com uma única razão. A conta fecha quando se olha para dois fatores juntos: o valor de mercado da fruta e a crescente demanda internacional por produtos funcionais e de alto valor nutricional.
Os dados são da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) e do IBGE, com base no último levantamento disponível, de 2023. O mercado sentiu o movimento. As exportações brasileiras de pitaya saltaram de US$ 149,9 mil em 2020 para US$ 1,7 milhão em 2022, segundo o Comex Stat compilado pela Abrafrutas. União Europeia, Canadá e Reino Unido lideram os destinos. Para o produtor que enxerga além da porteira, esse número diz muito.
Sudeste e Sul ainda dominam, mas o Norte acelera
Oitenta por cento da produção nacional ainda está concentrada no Sudeste e no Sul. O que chama atenção agora é o que acontece fora desse eixo tradicional. O Pará já responde por cerca de 10% do total produzido no país, e o Amazonas começa a estruturar sua cadeia produtiva com iniciativas concretas de fomento.
Em Manaus, a Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Centro e Comércio Informal (Semac) distribuiu cerca de 30 mil mudas para agricultores da região. Uma das beneficiadas foi a Copasa-Agro, cooperativa de agricultores familiares instalada no assentamento Terumã-Mirim, às margens da rodovia AM-010. A lógica da Semac é direta: o Amazonas reúne calor intenso, luminosidade favorável e regime de chuvas regulares. Condições que, na prática, se traduzem em janela de colheita estendida.
O cooperado Daniel Mendonça Sampaio plantou 2 mil pés de pitaya em apenas 0,5 hectare. “O clima quente favorece a colheita durante quase o ano todo, mas o principal período é de janeiro a maio”, explica. Além da pitaya, Sampaio cultiva pimenta, quiabo e pepino em três hectares — toda a família trabalha no campo. É um sistema diversificado que reduz risco e mantém o caixa girando.
O preço que justifica a aposta
A fruta-do-dragão pertence à família Cactaceae, originária das Américas e hoje produzida em larga escala no Sudeste Asiático. O Vietnã produz mais de 600 mil toneladas por ano. A China, 36 mil. O Brasil, com suas 6 mil toneladas, ainda é um player pequeno no mercado global — mas cresce com consistência e tem um diferencial competitivo claro: qualidade organoléptica reconhecida e abertura de mercado externo.
No varejo, o preço da pitaya ao consumidor final varia de R$ 7 a R$ 15 por fruta, a depender da época do ano e da região. Para o produtor, essa faixa de preço representa uma remuneração porteira para dentro muito superior à de culturas tradicionais como mandioca ou milho na mesma área. Sampaio produz cerca de 2 toneladas por ano na sua área de pitaya. Parte vai direto para a prefeitura de Manaus, que utiliza a fruta na merenda escolar. O restante é escoado em feiras e mercados locais.
A pitaya é rica em fibras, vitamina C, ferro, magnésio, compostos antioxidantes e polifenóis. Nutricionalmente, ela responde bem à demanda crescente por alimentos funcionais — um mercado que o comprador europeu e canadense leva muito a sério na hora de fechar contrato.
O cancro que ameaça o crescimento
A expansão tem um adversário silencioso. O cancro da pitaya é uma doença fúngica que, sem manejo adequado, pode comprometer a lavoura inteira. Sampaio é direto sobre o risco: “Se não cuidar, é perda de 100%. Estamos controlando com os produtos, químicos e biológicos.”
O alerta vale para quem está entrando agora na cultura atraído pelo preço. A pitaya é um cacto trepador, adaptado a climas quentes e secos, com boa rusticidade — mas que exige monitoramento fitossanitário constante. O manejo integrado, combinando controle químico e biológico, é o caminho mais eficiente para segurar o estande de plantas e garantir a produtividade ao longo dos ciclos.
A Amazônia tem clima, tem área disponível e começa a ter estrutura de fomento. O que vai definir quem aproveita essa janela de mercado é a capacidade de escalar produção com qualidade fitossanitária e logística para escoamento. Quem resolver esses dois gargalos primeiro vai chegar na frente — no mercado interno e no externo.
Fonte: Globo Rural
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