A braquiária (Urochloa decumbens) chegou ao Brasil na década de 1960 vinda das regiões tropicais da África Oriental e, desde então, tornou-se uma das ameaças mais persistentes ao Cerrado. Ao contrário de invasoras que disputam espaço com outras plantas, ela recobre completamente o solo e impede que espécies nativas germinem, cresçam e se reproduzam. Combatê-la com herbicidas ou capina manual é, na maioria dos casos, um esforço caro e de resultado limitado. Contudo, um estudo do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), publicado no periódico Agriculture, Ecosystems and Environment, aponta uma alternativa que une restauração ecológica e atividade produtiva: o pastejo pelo gado, quando bem manejado, pode conter o avanço da gramínea e devolver diversidade aos campos naturais.
A pesquisa foi conduzida na Estação Ecológica de Santa Bárbara, na região oeste do Estado de São Paulo, em uma área de campo nativo do Cerrado previamente invadida por braquiária. As pesquisadoras delimitaram parcelas com e sem acesso ao gado, permitindo comparar, ao longo de dois anos, o que mudava pelo efeito direto do pastejo e o que ocorreria naturalmente, sem intervenção animal. Antes da entrada do gado, 200 parcelas de um metro quadrado foram mapeadas, com registro de todas as espécies presentes e da proporção do solo ocupada por plantas nativas, braquiária, arbustos, árvores e solo exposto. O mesmo levantamento foi repetido dois anos depois, avaliando quantidade de espécies, formas de crescimento e capacidade de rebrote.
Pastejo rotacionado reduz cobertura de braquiária pela metade
O sistema adotado no experimento foi o rotacionado, que alterna períodos curtos de uso com fases de descanso para evitar degradação do solo e da vegetação. Ao final do período avaliado, esse modelo reduziu em 50% a cobertura de braquiária e aumentou o solo exposto a níveis semelhantes aos de campos naturais preservados, sem histórico de invasão.
Esse resultado importa porque o solo exposto, longe de indicar degradação, é um elemento estrutural dos campos do Cerrado. “A abertura de espaço no solo é fundamental nos campos, porque cria condições para que outras espécies possam germinar ou rebrotar, o que contribui para a diversidade e a manutenção da vegetação típica”, explica Bruna Helena de Campos, autora principal do estudo.
Com a braquiária recuando e o solo disponível, as espécies nativas do Cerrado voltaram a ocupar as áreas antes dominadas pela gramínea invasora. A riqueza total de espécies nativas aumentou aproximadamente 20% nas parcelas pastejadas em comparação com as não pastejadas. Além disso, o pastejo favoreceu plantas com atributos funcionais que conferem resiliência ao ecossistema. “O aumento da riqueza da camada herbácea, aliado à redução da espécie invasora, indica que o ecossistema está recuperando parte de sua diversidade funcional”, afirma Campos.
O vínculo histórico entre o Cerrado e os grandes herbívoros
Para entender por que o pastejo produz esse efeito, é necessário recuar no tempo. Ao longo de milhões de anos, as plantas do Cerrado desenvolveram adaptações para conviver com a herbivoria exercida pelos grandes animais da megafauna sul-americana, hoje extintos. Essas características foram incorporadas de forma tão profunda que muitos campos naturais do bioma dependem do pastejo para manter seu equilíbrio ecológico, seja na ciclagem de nutrientes, no controle do acúmulo de biomassa ou na abertura de espaço para novas gerações de plantas.
A ecóloga e coautora do estudo, Giselda Durigan, situa o Cerrado dentro de um contexto global que já reconhece esse papel há décadas. “Na África, a relação entre os campos e o pastejo é amplamente conhecida há muito tempo. Em regiões onde os grandes herbívoros são raros ou ausentes, o gado tem feito o papel de controlar o acúmulo exagerado de biomassa de capins”, conta Durigan.
Essa perspectiva reposiciona o gado não como agente de degradação do bioma, mas como substituto funcional de uma interação ecológica que existia muito antes da pecuária. A condição, por sua vez, é que o manejo respeite os limites que a vegetação nativa impõe.
Sobrepastejo ainda é o principal risco a evitar
A validade dos resultados depende diretamente do controle da carga animal. Quando há sobrepastejo, ou seja, mais animais do que o ambiente suporta, os efeitos se invertem: o pisoteio excessivo compacta o solo, o consumo acima da capacidade de rebrote reduz a cobertura vegetal e, consequentemente, diminui a diversidade. “Quando há sobrepastejo, pode haver comprometimento. Além da compactação do solo, o pisoteio e o consumo aumentado das plantas pode diminuir a cobertura vegetal e, consequentemente, reduzir a diversidade”, alerta Campos.
A pesquisadora recomenda o acompanhamento contínuo com indicadores ecológicos objetivos, como a cobertura do solo por vegetação e a riqueza de espécies, como forma de verificar se o pastejo está, de fato, contribuindo para a restauração ao longo do tempo. Sem esse monitoramento, a prática pode gerar impactos negativos que passam despercebidos até tornarem-se difíceis de reverter.
Reconhecimento legal abre caminho para a adoção em escala
O estudo dialoga diretamente com o marco legal brasileiro. A Lei de Proteção à Vegetação Nativa permite o chamado manejo sustentável, que abre espaço para o uso econômico da vegetação nativa ou restaurada desde que compatível com a conservação. Em alguns estados, essa abertura já inclui formas de manejo ecológico com gado. No Estado de São Paulo, o pastejo já é oficialmente reconhecido como uso sustentável de Reserva Legal em ecossistemas abertos, o que representa um precedente relevante para outros biomas e legislações estaduais.
Para Durigan, o estudo valida essa política pública ao demonstrar, com evidências experimentais, que o pastejo bem conduzido favorece a vegetação nativa. Ainda assim, a adoção dessa ferramenta em escala exige que órgãos ambientais, gestores de unidades de conservação e proprietários rurais atuem de forma coordenada, definindo protocolos claros de densidade animal, períodos de descanso e critérios de monitoramento. O potencial existe e os dados apontam na mesma direção, mas a aplicação prática depende de planejamento técnico rigoroso em cada propriedade e contexto regional.
