GeoFert: a ferramenta da Embrapa que coloca fim ao controle manual de dejetos suínos

Sistema digital georreferenciado registra origem, destino e aplicação de biofertilizantes em tempo real, atendendo exigências de licenciamento ambiental

GeoFert: a ferramenta da Embrapa que coloca fim ao controle manual de dejetos suínos

A suinocultura brasileira produz, por ano, volumes expressivos de resíduos líquidos que, quando bem manejados, se transformam em biofertilizantes de alto valor agronômico. O problema está justamente nesse “quando bem manejados”: a etapa de comprovação da destinação correta desses efluentes continua sendo um dos pontos mais críticos do setor, especialmente no oeste de Santa Catarina, onde a concentração animal é das mais altas do país. Para resolver esse gargalo, a Embrapa Suínos e Aves desenvolveu o GeoFert, um sistema digital de gestão com georreferenciamento que rastreia cada passo do processo, da coleta na granja até a aplicação no solo.

A tecnologia surgiu dentro do projeto Smart (Modelo de Gestão Ambiental para áreas com produção intensiva de animais na região Sul do Brasil) e está em fase de validação junto a parceiros privados antes de ser transferida à cadeia produtiva. Mais do que uma ferramenta de controle, o GeoFert representa uma mudança estrutural na forma como o setor comprova o cumprimento das exigências ambientais — e nisso está o seu diferencial mais relevante para produtores, prefeituras e órgãos de fiscalização.

O desafio que veio depois do licenciamento

Em Santa Catarina, o licenciamento ambiental de granjas suinícolas já opera com suporte tecnológico consolidado: o Sistema de Gestão Ambiental da Suinocultura (SGAS), também desenvolvido pela Embrapa Suínos e Aves, que estima excreção animal, calcula oferta de nutrientes, dimensiona estruturas de armazenamento e recomenda doses de adubação. Esse sistema ajudou a padronizar e agilizar o processo de licenciamento no estado.

Contudo, o licenciamento é apenas o início da jornada regulatória. A Licença de Operação exige que o produtor comprove continuamente a destinação correta dos efluentes — e é nessa fase, a do pós-licenciamento, que os controles historicamente se tornam frágeis. O pesquisador da Embrapa Cláudio Miranda resume bem o cenário: “Em muitos municípios, essa etapa ainda depende de registros manuais ou de controles fragmentados, o que dificulta a verificação e compromete a transparência do processo.”

A fragilidade se agrava nas operações que envolvem terceiros. Granjas que utilizam áreas cedidas por vizinhos ou que dependem de frotas públicas de prefeituras e associações de máquinas para o transporte dos resíduos enfrentam um desafio logístico e documental adicional: como garantir que cada carrada de efluente saiu do ponto A, percorreu o trajeto correto e chegou ao ponto B na dose certa, com data e hora registradas de forma auditável? Sem um sistema digital integrado, essa pergunta raramente tinha resposta satisfatória.

O que o GeoFert registra e como funciona

O sistema organiza as atividades de coleta, transporte e aplicação de dejetos em uma plataforma informatizada que utiliza georreferenciamento para amarrar cada evento a uma coordenada geográfica precisa. As informações armazenadas incluem a origem dos efluentes, as propriedades receptoras, as datas e horários de cada atividade e as coordenadas dos locais de aplicação. Além disso, o GeoFert oferece painéis com mapas, gráficos e tabelas que permitem tomadas de decisão rápidas tanto por produtores quanto por gestores públicos.

Um dos diferenciais que posicionam o sistema acima das soluções comerciais de rastreamento de frotas é a integração com os dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR).

“Isso permitirá fortalecer a conformidade de prestadores de serviços agrícolas — prefeituras, associações de máquinas ou empresas privadas — bem como assegurar maior agilidade, transparência e economicidade no atendimento das solicitações de serviços demandados pelos agricultores”, destaca o pesquisador Cláudio Miranda.

Diferentemente de um rastreador de veículos convencional, o GeoFert foi desenhado com foco nas exigências específicas da cadeia suinícola e nas obrigações legais de comprovação ambiental. O sistema gera evidências auditáveis para órgãos ambientais e de controle, dá transparência ao uso de frotas públicas conveniadas e complementa as funcionalidades do SGAS no planejamento e execução das atividades — os dois sistemas funcionam de forma integrada ao longo de todo o ciclo produtivo.

O público-alvo é amplo: produtores rurais, órgãos ambientais, consultorias, empresas de assistência técnica, prefeituras, associações de máquinas e demais prestadores de serviços agrícolas ligados ao manejo de efluentes suinícolas.

Validação em campo e primeiros resultados

Em agosto de 2025, o município de Presidente Castello Branco, no oeste de Santa Catarina, tornou-se o primeiro a implementar oficialmente o GeoFert. A adoção automatizou as solicitações de serviços e digitalizou informações que antes eram registradas à mão, eliminando um risco permanente de inconsistências documentais. A validação conta com a parceria da empresa Ekodata Tecnologia e Saneamento Ambiental, responsável pela implantação do sistema, pelo treinamento dos usuários, pelo acompanhamento dos testes e por sugerir customizações conforme as demandas reais de cada operação.

“A fase de validação tem sido fundamental para aprimorar o sistema. Cada município que adota o GeoFert nos permite ajustar fluxos, adequar interfaces e incorporar funcionalidades alinhadas às demandas reais dos operadores e dos gestores públicos”, afirma Miranda.

O processo de validação sinaliza que a tecnologia caminha para uma transferência consistente à cadeia produtiva, com base em ajustes técnicos aplicados diretamente na prática. A expectativa da Embrapa é que a adoção ampliada do GeoFert fortaleça a rastreabilidade no uso de biofertilizantes, aumente a responsabilidade ambiental dos envolvidos na cadeia e eleve a eficiência das políticas públicas de apoio à suinocultura familiar — especialmente em regiões onde a pressão regulatória e a concentração animal exigem respostas cada vez mais precisas e documentadas.

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