Desde o dia 7 de abril, gestores públicos de sete municípios da Região Metropolitana de Jundiaí estão reunidos em uma iniciativa que vai além de um curso de capacitação. O ciclo formativo Adaptação das Cidades à Emergência Climática, organizado pelo IABsp e pela Escola da Cidade com patrocínio do Instituto Clima e Sociedade (ICS), colocou lado a lado arquitetos, engenheiros, planejadores urbanos e técnicos da defesa civil para discutir, de forma conjunta, como seus municípios podem se preparar para os impactos crescentes das mudanças climáticas.
O que chama atenção já no primeiro encontro é a composição das equipes. Áreas que costumam operar de maneira segmentada dentro das gestões municipais agora compartilham sala de aula — e, mais importante, compartilham o mesmo território. Essa proximidade tem gerado trocas diretas e uma percepção comum sobre os limites de agir isoladamente diante de fenômenos que não respeitam divisas administrativas.
De resposta rápida para lógica de prevenção
A presença massiva de equipes da defesa civil na formação é um dos sinais mais claros da transformação que o curso busca promover. Historicamente, a defesa civil municipal opera sob pressão de eventos extremos, com foco na resposta imediata. A mudança de paradigma que o curso propõe é estrutural: sair da gestão de crises para a construção antecipada de resiliência.
“Quase todos os grupos envolvem equipes de defesa civil, demonstrando o interesse de sair de uma lógica de resposta rápida para uma lógica de prevenção”, observa Luiz Florence, um dos coordenadores da iniciativa.
Essa transição não é simples. Ela exige que municípios invistam em diagnósticos territoriais, mapeamento de vulnerabilidades e instrumentos de planejamento que, muitas vezes, competem com demandas imediatas do cotidiano da gestão pública. Por isso, a estrutura do curso foi pensada para reconhecer diferentes níveis de maturidade entre os participantes, sem impor um modelo único de adaptação.
Bacia do Rio Jundiaí como eixo territorial
Um dos temas que mais evidencia a necessidade de articulação regional é a bacia hidrográfica do Rio Jundiaí. Inundações, assoreamento e pressão sobre as zonas de recarga hídrica são desafios que nenhum município resolve sozinho. A formação abre espaço justamente para pensar essas soluções em escala, conectando o que cada administração já faz com o que pode ser potencializado quando os municípios atuam de forma coordenada.
A parceria com o Governo do Estado de São Paulo foi decisiva para viabilizar esse arranjo. Ao reunir, em uma mesma turma, equipes de diferentes administrações que compartilham o mesmo território, a iniciativa cria condições para que o planejamento municipal deixe de ser um exercício isolado e passe a dialogar com a realidade regional. Essa integração é justamente o que diferencia o curso de iniciativas puramente técnicas ou teóricas.
Planos de adaptação como produto concreto
O curso não se propõe apenas a sensibilizar gestores sobre o tema climático. Seu objetivo é mais objetivo: apoiar a construção de planos municipais de adaptação, com metodologia aplicada e orientada pela realidade de cada território.
“O curso parte de uma perspectiva muito prática de apoiar esses gestores públicos na construção de planos de adaptação, reconhecendo diferentes níveis de maturidade entre os municípios e buscando, ao longo das aulas, sistematizar esses instrumentos”, destaca Beatriz Vanzolini, coordenadora do programa.
Essa abordagem pragmática é o que sustenta a relevância da iniciativa. Municípios de médio porte, como os da Região Metropolitana de Jundiaí, raramente dispõem de equipes técnicas especializadas em clima. Ao oferecer um processo formativo estruturado, com suporte metodológico e troca entre pares, o IABsp preenche uma lacuna que o mercado privado de consultoria não costuma alcançar nessas escalas.
IABsp como articulador técnico e territorial
A organização do curso pelo GT Clima e Cidade, pela Diretoria de Ensino, Formação e Práticas Profissionais e pela Diretoria de Território, Clima e Sustentabilidade do IABsp revela uma atuação institucional que vai além da representação profissional. O instituto posiciona a arquitetura e o urbanismo como campos centrais na resposta às emergências climáticas, conectando o saber técnico à escala da gestão pública.
Essa articulação é estratégica num momento em que cidades brasileiras enfrentam eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, enquanto os instrumentos de planejamento urbano ainda operam, na maior parte dos casos, com lógicas construídas para um clima estável. A formação de gestores capacitados a elaborar e implementar planos de adaptação é, portanto, um dos caminhos mais diretos para reduzir a vulnerabilidade dos territórios nas próximas décadas.
