Pecuaria
Leite caprino da Caatinga entra na era das Ciências Ômicas
Estudo identifica microbioma e abre caminho para certificação de origem e novos bioprodutos
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A produção de leite caprino no Semiárido brasileiro está entrando em um novo patamar tecnológico. Pesquisadores do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal da Paraíba decidiram ir além da análise convencional de qualidade e partiram para o mapeamento detalhado do microbioma do leite e de queijos produzidos no bioma Caatinga. O foco é claro: entender, em nível molecular, quais microrganismos estão presentes, como interagem e de que forma impactam sabor, segurança e desempenho produtivo.
Não é apenas ciência básica. É estratégia de mercado.
A equipe realiza um estudo observacional em diferentes rebanhos, coletando amostras ao longo da lactação. Isso permite enxergar a dinâmica microbiológica “porteira para dentro”, considerando manejo, clima e sistema produtivo típicos do Semiárido. Além das análises físico-químicas tradicionais e da contagem de células somáticas, o projeto aplica sequenciamento de alto desempenho para meta-taxonomia (rRNA 16S), transcriptômica e metabolômica por ressonância magnética nuclear e cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas.
Em termos práticos, isso significa identificar biomarcadores capazes de orientar decisões sanitárias e tecnológicas. O produtor ganha informação. A indústria ganha previsibilidade.
Para o coordenador do estudo, Prof. Dr. Celso José Bruno de Oliveira, o impacto pode ser estrutural. “O estudo detalhado de queijos caprinos possibilitará o aprimoramento do processo de produção voltado à agregação de valor através das características sensoriais desejáveis, da segurança alimentar e da possível identificação de compostos bioativos com impacto positivo para a saúde humana”, afirma.
Traduzindo para o bolso: melhor controle microbiológico reduz perdas por mastite, melhora rendimento industrial e abre espaço para produtos premium com certificação de origem.
Microbioma define padrão de qualidade
A microbiota do leite caprino influencia textura, aroma e estabilidade do queijo. Entretanto, no Brasil, a ecologia microbiana da produção na Caatinga ainda é pouco explorada comercialmente. Isso cria um descompasso entre o potencial produtivo e o valor efetivamente capturado no mercado.
A Paraíba é hoje o maior produtor de leite caprino do país. O volume existe. O diferencial tecnológico ainda não.
O uso das Ciências Ômicas permite mapear microrganismos benéficos e identificar padrões metabólicos associados à qualidade sensorial e funcional. Além disso, abre caminho para o desenvolvimento de bioprodutos voltados à prevenção e controle de mastites, problema recorrente na caprinocultura leiteira.
“Espera-se gerar informações que representem com precisão a realidade da caprinocultura leiteira no Semiárido, oferecendo subsídios importantes para o fortalecimento do setor produtivo, com foco na valorização da identidade regional e na agricultura familiar”, destaca Celso.
O mercado sente a diferença quando há identidade territorial clara. E paga por isso.
Certificação de origem pode mudar o jogo
A pesquisa também mira inovação em rastreabilidade e certificação. Quando se identifica um perfil microbiológico característico de determinada região, cria-se base técnica para reconhecimento de origem — algo que agrega valor no mercado interno e externo.
Isso altera o mix de produção. Sai o produto genérico. Entra o queijo com identidade.
O projeto é conduzido em parceria com a USP e com a Embrapa Caprinos e Ovinos, dentro da REDE InovaSocial PB/PE, com financiamento do BNDES e apoio da Fapesq. O investimento de quase R$ 200 mil viabiliza infraestrutura laboratorial e análises de ponta.
O dinheiro foi aplicado em tecnologia que pode redefinir competitividade regional.
O impacto vai além do laboratório
A pesquisa também fortalece formação técnica e científica, com teses, dissertações e trabalhos aplicados diretamente à realidade do Semiárido. Contudo, o efeito mais relevante não está apenas na academia. Está na porteira.
Se o produtor passa a entender melhor a composição microbiológica do seu rebanho, ele pode ajustar manejo nutricional, sanidade e processo de ordenha. Pode reduzir contagem bacteriana. Pode melhorar rendimento do queijo. Pode negociar melhor preço disponível.
E agora?
Se os dados confirmarem padrões regionais consistentes, a caprinocultura da Caatinga terá argumentos técnicos para disputar nichos de alto valor agregado. O mercado de lácteos caprinos premium cresce no Brasil e lá fora. Quem dominar tecnologia e identidade regional sai na frente.
Fonte: FapesqPB
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