Nas regiões de altitude do Planalto Sul Brasileiro, apicultores trabalham com um tipo de mel que desafia a lógica da produção convencional. Escuro, com sabor menos adocicado e origem inusitada, o mel de melato de bracatinga não vem das flores. A matéria-prima é um líquido açucarado que escorre pelos troncos das árvores, liberado por pequenos insetos que vivem sob a casca.
Esse processo foge completamente do padrão floral. Cochonilhas perfuram a bracatinga para se alimentar da seiva e, ao fazer isso, excretam uma substância rica em açúcares. As abelhas coletam esse melato diretamente nos troncos e galhos, levam para a colmeia e o transformam em mel. A árvore funciona como intermediária, mas não oferece néctar nem pólen. O verdadeiro protagonista é o inseto.
A geografia define a produção
A atividade se concentra em áreas específicas de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, com destaque absoluto para o município de São Joaquim. A altitude e o clima frio da região favorecem tanto o desenvolvimento da bracatinga quanto a proliferação das cochonilhas. Essas condições naturais não podem ser replicadas em outras localidades, o que torna o produto geograficamente único.
Segundo a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), cerca de 90% da produção segue para a Europa, onde consumidores alemães lideram a demanda. O mercado interno ainda conhece pouco o melato, mas o interesse vem crescendo à medida que os diferenciais do produto ganham visibilidade.
Ciclo do inseto determina a safra
Diferente da apicultura floral, que depende de floradas anuais, a produção de melato segue o ciclo populacional das cochonilhas. Esses insetos apresentam picos de infestação a cada dois anos, aproximadamente. Quando a população explode, aumenta a quantidade de substância disponível nos troncos. “O apicultor precisa monitorar a presença das cochonilhas nas bracatingas para posicionar as colmeias no momento certo. Perder a janela de produção significa ficar dois anos sem safra”, explica o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Florestas, Eleodoro del Pino.
Essa imprevisibilidade exige planejamento diferenciado. Muitos produtores mantêm colmeias em áreas de floração convencional para garantir renda nos anos de baixa ocorrência de melato. A alternância entre mel floral e melato se tornou estratégia de diversificação para minimizar riscos econômicos.
Composição química diferenciada
A análise laboratorial revela contrastes marcantes entre o mel de melato e o mel floral. Pesquisas conduzidas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) mostram que o melato apresenta maior concentração de minerais e compostos fenólicos, enquanto os níveis de glicose e frutose ficam abaixo dos méis tradicionais. Essa composição explica a cristalização mais lenta e a coloração mais escura.
“A menor quantidade de açúcares simples faz com que o melato permaneça líquido por muito mais tempo. Para o mercado europeu, isso é uma vantagem, porque o consumidor prefere mel fluido”, afirma a bióloga e especialista em produtos apícolas da UFSC, Mariana Vidal.
Além disso, o sabor menos doce agrada paladares que buscam perfis gustativos mais complexos. O melato carrega notas amadeiradas e ligeiramente amargas, características valorizadas na alta gastronomia e em harmonizações com queijos e vinhos.
Indicação Geográfica protege o território
Em 2021, o Mel de Melato da Bracatinga do Planalto Sul Brasileiro conquistou o registro de Indicação Geográfica na modalidade Denominação de Origem, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O reconhecimento oficial delimita a área de produção e estabelece critérios técnicos que garantem a autenticidade do produto.
Para o setor, a certificação representa blindagem contra adulterações e valorização no mercado externo. Consumidores europeus pagam premium por produtos com origem controlada, e a Denominação de Origem funciona como selo de qualidade que diferencia o melato brasileiro de outros méis no mercado internacional.
A rastreabilidade também beneficia os apicultores locais. Com a delimitação geográfica, produtores de fora da região não podem comercializar mel comum sob o rótulo de melato de bracatinga, protegendo a reputação e os preços praticados no Planalto Sul.
Desafios na cadeia produtiva
Apesar da valorização no exterior, a produção enfrenta gargalos logísticos e estruturais. A maioria dos apicultores trabalha em pequena escala, sem acesso a equipamentos de beneficiamento que permitam agregar valor ao produto antes da exportação. O mel segue para atravessadores que controlam a comercialização internacional e capturam boa parte da margem de lucro.
Outro ponto crítico é a falta de assistência técnica especializada. O manejo de colmeias para produção de melato exige conhecimento sobre o ciclo das cochonilhas e monitoramento constante das bracatingas. Programas de capacitação ainda são escassos, e muitos produtores aprendem na prática, com perdas de produtividade.
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) vem estimulando a organização dos apicultores em cooperativas e associações. A ideia é fortalecer o poder de negociação frente aos compradores internacionais e viabilizar investimentos coletivos em infraestrutura de beneficiamento e armazenamento.
Potencial no mercado nacional
Embora o mercado interno consuma majoritariamente mel floral, há espaço para o melato crescer em nichos específicos. Lojas de produtos naturais, empórios gourmet e plataformas de venda direta têm mostrado interesse no produto, especialmente quando acompanhado de informações técnicas sobre origem e propriedades.
A comunicação é decisiva. Consumidores brasileiros associam mel a doçura intensa e coloração clara. O melato precisa ser apresentado como alternativa premium, com atributos que justifiquem o preço superior. Degustações, workshops e parcerias com chefs podem acelerar a aceitação no mercado doméstico.
Para os próximos anos, a expectativa é que a Indicação Geográfica ajude a consolidar a reputação do produto dentro e fora do Brasil. O desafio está em equilibrar a demanda externa com o desenvolvimento de um mercado interno que valorize a raridade e a identidade territorial desse mel que dispensa flores para existir.



