O Paraná está redesenhando seu mapa agrícola. Os dados mais recentes do relatório mensal do Deral (Departamento de Economia Rural), vinculado à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, mostram que a área cultivada com milho na primeira safra saltou de 278,3 mil hectares para 364,9 mil hectares, um avanço de 31% em relação à safra 24/25. Na segunda safra, o número vai ainda mais longe: são 2,9 milhões de hectares plantados, 7% acima da safra anterior e a maior área já registrada na história do Estado.
O que explica essa virada não é apenas a preferência pelo milho em si, mas o cenário menos favorável da soja, que perdeu atratividade diante de preços pouco competitivos para o produtor. O cereal preencheu esse espaço com consistência.
A lógica por trás da escolha do produtor
Quando o mercado muda, o campo responde. Edmar Gervásio, agrônomo do Deral, aponta com clareza a razão principal do movimento: “O milho tem uma capacidade produtiva maior do que a soja, que está com preços não muito atrativos. Os preços mais estáveis levaram o produtor a optar pelo milho. A produção chegou a mais de 4 milhões de toneladas na primeira safra.”
A decisão não é sentimental, é matemática. Com a soja pressionada por excesso de oferta global e margens estreitas, o milho passou a oferecer uma equação mais segura, especialmente para quem precisa de previsibilidade na hora de planejar o ciclo produtivo. O resultado prático aparece nos números: mais de 4 milhões de toneladas colhidas só na primeira safra, consolidando o Paraná como um dos maiores produtores do cereal no país.
Vale lembrar que a soja paranaense também entregou um resultado expressivo, com 21,7 milhões de toneladas, colocando o Estado entre os três maiores produtores da oleaginosa. O crescimento do milho não apagou esse desempenho, mas sinalizou uma diversificação estratégica que tende a se aprofundar nos próximos ciclos.
Segunda safra avança sobre o trigo e mira recorde
Se a primeira safra de milho já surpreendeu, a segunda promete mais. Com 2,9 milhões de hectares, a cultura avançou sobre áreas que, em outros anos, seriam ocupadas pelo trigo. É um movimento que reflete tanto a confiança do produtor no cereal quanto as condições de mercado que tornaram essa substituição economicamente viável.
A projeção, caso não haja interferência climática significativa, é de uma produção acima de 17,5 milhões de toneladas na segunda safra. Somadas as duas safras, o Paraná pode chegar a mais de 21 milhões de toneladas de milho em um único ano, um número que coloca o Estado em outra dimensão dentro da cadeia produtiva nacional.
O único ponto de atenção no curto prazo são as geadas, que já causaram impactos pontuais na região Sul do Estado, ainda que sem relevância expressiva para o volume total esperado. As próximas semanas serão decisivas para definir o potencial produtivo das áreas mais afetadas.
Trigo estável e perspectiva favorável para o inverno
Enquanto o milho avança, o trigo segue seu próprio ritmo. Mais de 61% da área paranaense já foi plantada, com previsão de ocupar 722 mil hectares e colher 2,4 milhões de toneladas. O cereal de inverno encontra-se em bom estado de desenvolvimento, e há uma janela de otimismo no horizonte.
Marcelo Garrido, técnico do Deral, observa que as condições climáticas projetadas para o segundo semestre podem favorecer a cultura: “A previsão de um intenso El Niño, com menos frio e mais chuvas, aponta para um inverno menos rigoroso, o que pode beneficiar o trigo e o plantio da safra de verão do próximo ano.”
Esse cenário climático, se confirmado, cria uma cadeia de benefícios que vai além do trigo, preparando o terreno para uma safra de verão mais favorável, o que interessa diretamente aos produtores que já planejam a próxima temporada.
Outros destaques do campo paranaense
O relatório do Deral também revela movimentos relevantes em outros segmentos. Na olericultura, a batata teve queda na área e na produção em relação à safra anterior, com redução de 2% na produção estimada e 6% na produtividade, impactadas por chuvas que prejudicaram a colheita. A cebola enfrenta um cenário de retração de área plantada, reflexo direto do excesso de produção dos últimos anos, que pressionou os preços pagos ao produtor para baixo.
Ainda assim, há um dado que merece atenção: a tecnologia no campo transformou a produtividade da cebola. A produção por hectare passou de 26.092 kg em 2018 para 39.075 kg na safra atual, um salto de quase 50% em menos de uma década, puxado pelo uso de híbridos, semeadura direta e irrigação.
Na cadeia do leite, o boletim semanal do Deral aponta valorização generalizada, sustentada pela menor captação pelas indústrias. O preço pago ao produtor pelo leite cru subiu 13% em comparação à média de abril, um alívio para um setor que conviveu com margens apertadas nos últimos meses.
A avicultura, por sua vez, reforça sua posição de liderança. No primeiro quadrimestre, o Paraná embarcou 791,1 mil toneladas de frango, faturando US$ 1,43 bilhão, com crescimento de 6,2% no volume e 4,1% nos ganhos em relação ao período anterior. A demanda segue aquecida, especialmente por parte de China e Japão, dois dos principais destinos das exportações paranaenses.




