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Máquinas agrícolas entram em 2026 sob ritmo mais cauteloso
Publicado
5 dias atrásem
Por
Claudio P. Filla
Depois de um ano marcado por desempenho robusto e retomada significativa dos investimentos, o setor de máquinas e implementos agrícolas caminha para 2026 sob um cenário de maior cautela.
Embora o faturamento tenha avançado de forma expressiva em 2025, os sinais que se desenham para o próximo ciclo indicam um ritmo mais moderado, influenciado por juros elevados, crédito restrito e uma renda agrícola pressionada por custos de produção crescentes. Assim, o ambiente que antes favorecia a renovação do maquinário passa a exigir decisões mais estratégicas por parte dos produtores.
Crescimento perde força após ano positivo
O setor encerrou 2025 com crescimento de 10% e receita estimada em R$ 68 bilhões, consolidando um período de recuperação importante após anos de ajustes. Entretanto, para 2026, a expectativa da indústria é de um avanço bem mais contido, próximo de 3,4%. Essa desaceleração não reflete uma crise estrutural, mas sim uma combinação de fatores econômicos que reduzem o apetite por investimentos de maior valor no curto prazo.
Nesse contexto, a renovação do parque de máquinas tende a ocorrer de forma seletiva, priorizando segmentos específicos e equipamentos de menor porte, sobretudo aqueles associados a linhas de crédito mais acessíveis.
Crédito caro e margens apertadas mudam o comportamento do produtor
A taxa de juros elevada surge como um dos principais entraves para o setor. As condições do Plano Safra 2025/26 mantiveram patamares considerados altos para financiamentos voltados a produtores empresariais e médios, o que tem desestimulado a aquisição de tratores e colheitadeiras de maior valor agregado. Ao mesmo tempo, a renda dos produtores permanece pressionada por custos elevados com insumos, logística e manutenção, sem uma valorização significativa das principais commodities agrícolas.
Esse cenário tem impacto direto sobretudo nas regiões produtoras de grãos, já que soja e milho respondem por cerca de 60% da demanda por máquinas agrícolas no país. Com preços mais baixos e margens comprimidas, produtores do Centro-Oeste e do Sul tendem a postergar investimentos, mesmo com recursos disponíveis em linhas tradicionais de financiamento.
Segmentos específicos sustentam parte da demanda
Apesar do ambiente mais desafiador, alguns segmentos seguem apresentando maior resiliência. Programas de crédito voltados à agricultura familiar continuam impulsionando a venda de tratores de menor potência, enquanto cadeias como café, citros, cana-de-açúcar, frutas e pecuária mantêm níveis mais estáveis de investimento. Esses setores, em geral, apresentam maior previsibilidade de receita ou ciclos produtivos menos expostos à volatilidade internacional das commodities.
Esse movimento contribui para um mercado mais concentrado em equipamentos de menor valor agregado, tendência que já ficou evidente ao longo de 2025 e deve se estender ao próximo ano.
Vendas, exportações e perfil do mercado
Entre janeiro e novembro de 2025, as vendas no atacado de máquinas agrícolas cresceram 16,1% na comparação anual, alcançando 44,5 mil unidades. No varejo, entretanto, houve leve retração, com queda de 0,7%, totalizando cerca de 43 mil unidades comercializadas. As exportações avançaram 2,6%, somando 5,7 mil unidades, o que reforça o papel do Brasil como fornecedor regional, ainda que sem crescimento expressivo.
Segundo a Anfavea, o mercado manteve forte concentração em máquinas de baixa potência, refletindo justamente a cautela dos produtores diante do cenário econômico.
Indústria projeta estabilidade e busca alternativas de financiamento
Para 2026, a indústria trabalha majoritariamente com projeções de estabilidade. A AGCO, que reúne marcas como Fendt, Massey Ferguson e Valtra, estima crescimento entre 3% e 4% nas vendas no próximo ano. A avaliação é de que segmentos como pecuária, café e citros seguirão sustentando a demanda, enquanto o setor de grãos deve manter desempenho lateralizado.
Diante do crédito tradicional mais caro, produtores têm recorrido com maior intensidade a alternativas como consórcios, operações de barter e financiamentos atrelados a moeda estrangeira. Esse movimento tem sido mais perceptível entre médios e grandes produtores, que buscam diluir custos e reduzir a exposição aos juros domésticos.
Expectativas das grandes fabricantes para a América do Sul
Outras líderes globais do setor também adotam uma postura cautelosa. A John Deere indicou, em seu balanço mais recente, expectativa de estabilidade nas vendas de tratores e colheitadeiras na América do Sul em 2026. A CNH, controladora das marcas Case IH e New Holland, segue a mesma linha de discrição em relação às projeções para o próximo ciclo.
Assim, o setor de máquinas agrícolas entra em 2026 menos impulsionado pelo crescimento acelerado e mais orientado pela eficiência, pela seletividade dos investimentos e pela adaptação às condições financeiras do produtor rural brasileiro.

Comunicador Social com especialização em Mídias Digitais e quase uma década de experiência na curadoria de conteúdos para setores estratégicos. No Agronamidia, Cláudio atua como Redator-chefe, liderando uma equipe multidisciplinar de especialistas em agronomia, veterinária e desenvolvimento rural para garantir o rigor técnico das informações do campo. É também o idealizador do portal Enfeite Decora, onde aplica sua expertise em paisagismo e arquitetura para conectar o universo da produção natural ao design de interiores. Sua atuação multiplataforma reflete o compromisso em traduzir temas complexos em conteúdos acessíveis, precisos e com alto valor informativo para o público brasileiro.
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