Os municípios de Cerro Azul e Doutor Ulysses concentram boa parte da produção de tangerina do Paraná. Localizados no Vale do Ribeira, na Região Metropolitana de Curitiba, eles formam uma das principais zonas citrícolas do Estado e, por isso, tornaram-se o alvo prioritário da Operação Big Citros desta semana. A ação, conduzida pela Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) com apoio das prefeituras locais, do IDR-PR e da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), começou na segunda-feira (4) e segue até esta sexta-feira (8), com fiscais percorrendo propriedades que ainda não haviam passado por vistoria da agência.
O objetivo central é claro: reduzir a incidência do Huanglongbing, o HLB, mais conhecido como greening, uma das doenças bacterianas mais destrutivas da citricultura mundial. A escolha do período não é casual. “A data é estratégica, já que nas tangerinas os sintomas do HLB são mais fáceis de identificar nos frutos e, assim, detectar as plantas sintomáticas”, explica o agrônomo Paulo Roberto Brandão, chefe do departamento de Sanidade Vegetal da Adapar.
Uma doença sem cura na região certa para se alastrar
O greening é causado pela bactéria Candidatus Liberibacter spp. e se dissemina por meio do inseto Diaphorina citri, o psilídeo-asiático-dos-citros, que se alimenta de plantas doentes e transporta a bactéria para áreas sadias. Uma vez instalada no pomar, a doença não tem tratamento: reduz drasticamente a produtividade, compromete a qualidade dos frutos e inviabiliza a comercialização ao longo do tempo.
Os sinais da infecção são visíveis a olho nu em plantas com quadro avançado. Os frutos ficam menores, com sementes abortadas ou necrosadas, coloração esverdeada irregular e queda precoce. O suco se torna amargo e mais ácido. As folhas endurecem, as nervuras ficam mais grossas e há queda intensa de material foliar. Contudo, em estágios iniciais, os sintomas são sutis — o que torna a inspeção técnica ainda mais necessária.
O Vale do Ribeira é particularmente vulnerável. A alta concentração de pomares de tangerina, aliada ao grande número de produtores que ainda não tiveram contato sistemático com informações sobre a doença, cria um cenário propício para a propagação silenciosa do HLB. “Como existem muitos produtores de tangerina no Vale do Ribeira, muitos deles ainda não tiveram muito contato com informações ou mesmo sabem quais são os sintomas exatos da doença”, afirma Diego Juliani de Campos, chefe da divisão de Sanidade da Citricultura da Adapar.
O que os fiscais fazem dentro do pomar
A Operação Big Citros não é apenas de inspeção. Ela combina três frentes de atuação: vistoria técnica, educação e notificação para erradicação. Durante as visitas, os fiscais e assistentes da Adapar percorrem os pomares identificando plantas com sintomas do HLB, orientam os produtores sobre o reconhecimento dos sinais da doença e entregam material informativo sobre o greening e as medidas de controle previstas pela legislação vigente.
Quando encontram plantas comprometidas, emitem notificação para erradicação. Os prazos variam conforme a idade do pomar: plantas com até oito anos ou com mais de 15 devem ser eliminadas imediatamente; entre nove e 12 anos, o produtor tem até quatro anos para erradicar; entre 13 e 15 anos, o prazo é de três anos. A lógica por trás dessa escalonagem considera tanto a capacidade produtiva remanescente quanto a urgência de controle sanitário em cada faixa etária.
Além das propriedades inspecionadas nesta semana, a Adapar atua de forma permanente em municípios ainda sem registro de ocorrência do greening, realizando levantamentos fitossanitários em propriedades comerciais e não comerciais, bem como em viveiros e estabelecimentos que comercializam mudas.
Portaria 105/2026: o que muda para o produtor
Um dos eixos centrais da operação é a divulgação da Portaria N.º 105/2026, publicada pelo Mapa em março deste ano. A norma estabelece que todas as propriedades com produção comercial de citros — laranjas, tangerinas e limões — que possuam ao menos 50 plantas devem ser cadastradas na Adapar em um prazo de até quatro meses. O cadastro é o ponto de partida para que a agência possa mapear a citricultura paranaense com precisão e estruturar ações preventivas antes que a doença avance para novas áreas.
“A Adapar está visitando propriedades ainda não fiscalizadas, o que é de suma importância porque o produtor tem esse primeiro contato com a doença, recebe as informações e pode levar isso para o campo. Acompanhamos o produtor nas propriedades, orientando sobre os sintomas e qual o melhor manejo, que nesse caso é a eliminação de plantas com doença”, destaca Campos.
Além do cadastro, as orientações da Adapar, alinhadas com o Ministério da Agricultura e Pecuária, incluem: uso exclusivo de mudas sadias provenientes de viveiros registrados e certificados, controle periódico do psilídeo transmissor com produtos registrados, inspeção regular dos pomares em busca de sintomas iniciais e comunicação imediata à agência ao identificar casos suspeitos. O controle do vetor é especialmente crítico em regiões com alta densidade de plantios, onde a movimentação do inseto entre propriedades vizinhas pode acelerar a disseminação.
“O HLB é uma doença relativamente nova na região e o Vale do Ribeira é a principal área em produção de tangerinas no Estado. O avanço do HLB representa uma ameaça séria à sustentabilidade da produção. A Operação Big Citros tem como objetivo principal reduzir a incidência do greening por meio de orientação aos produtores, detecção e erradicação das plantas sintomáticas”, resume Paulo Roberto Brandão.
O calendário da Operação Big Citros é anual e tende a se expandir para outras áreas citrícolas do Paraná nos próximos ciclos. Para a citricultura do Vale do Ribeira, o momento é de atenção redobrada — e o produtor que ainda não registrou sua propriedade na Adapar precisa agir dentro do prazo estabelecido pela nova portaria para não ficar de fora do sistema de defesa sanitária do Estado.
