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PANC ganham espaço na agricultura familiar e impulsionam sistemas mais sustentáveis

by Derick Machado
28 de janeiro de 2026
in Noticias
André Frutuôso- Ascom/CAR

André Frutuôso- Ascom/CAR

Em meio aos debates sobre segurança alimentar, mudanças climáticas e valorização da biodiversidade brasileira, as Plantas Alimentícias Não Convencionais voltam ao centro das atenções como uma alternativa concreta para a agricultura familiar. Embora muitas ainda sejam vistas como “mato” ou plantas espontâneas, essas espécies carregam alto valor nutricional, rusticidade e forte conexão com os territórios onde se desenvolvem. Foi justamente esse potencial que ganhou evidência durante o Dia de Campo realizado no Sítio Agroecológico da Embrapa Meio Ambiente, no interior paulista, reunindo agricultores, técnicos e gestores interessados em ampliar horizontes produtivos.

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Ao longo da programação, os participantes puderam conhecer de perto áreas experimentais dedicadas às PANC, onde práticas de cultivo, propagação e manejo vêm sendo avaliadas de forma participativa. Além disso, a troca direta entre pesquisadores e agricultores reforçou um dos pilares da agroecologia: o conhecimento construído coletivamente, a partir da realidade do campo.

Biodiversidade e soberania alimentar no centro do debate

As PANC englobam espécies nativas, naturalizadas e até exóticas bem adaptadas às condições locais de solo e clima. Justamente por essa capacidade de adaptação, exigem menos insumos e apresentam bom desempenho mesmo em ambientes considerados adversos. Entretanto, seu uso ainda é limitado pela falta de informação técnica e de valorização cultural.

Segundo Joel Queiroga, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e um dos coordenadores do evento, o resgate dessas plantas está diretamente ligado à construção de sistemas alimentares mais autônomos. “As PANC ampliam o repertório alimentar, reduzem a dependência de agricultores às poucas culturas dominantes e fortalecem a segurança e a soberania alimentar. São espécies que dialogam com o território, com a cultura local e com a realidade da agricultura familiar”, afirma.

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Essa perspectiva reforça que diversificar não é apenas uma escolha produtiva, mas também estratégica. Ao incorporar novas espécies ao sistema, o agricultor dilui riscos, melhora o aproveitamento da área e contribui para a conservação da biodiversidade regional.

Do “mato” ao prato: mudança de percepção

Um dos pontos centrais discutidos no encontro foi o desafio cultural que envolve as PANC. Muitas dessas plantas fazem parte da paisagem rural há décadas, porém foram gradualmente excluídas das cadeias produtivas convencionais.

Para Guilherme Reis Ranieri, autor de “Matos de Comer”, o desconhecimento ainda é a principal barreira. “Muitas PANC são vistas como mato ou plantas sem valor, quando, na verdade, têm grande potencial nutricional e culinário. O trabalho de divulgação e de formação é essencial para mudar essa percepção”, destaca.

Assim, além do cultivo, a capacitação técnica e a valorização gastronômica tornam-se etapas fundamentais. Durante o Dia de Campo, a degustação de diferentes espécies evidenciou como essas plantas podem agregar sabor, identidade regional e valor comercial aos produtos da agricultura familiar.

Consórcios e sistemas integrados ampliam eficiência

Outro aspecto relevante apresentado no evento foi a integração das PANC em arranjos produtivos mais amplos. O cultivo consorciado de mandioca em faixas rotativas, por exemplo, demonstrou que a inclusão dessas espécies pode aumentar a eficiência do uso da terra e melhorar a saúde do solo.

A diversificação, nesse contexto, atua como ferramenta de equilíbrio ecológico. Ao combinar culturas de ciclos distintos, o agricultor reduz a pressão de pragas, melhora a cobertura do solo e potencializa a produção ao longo do ano. Além disso, sistemas agroflorestais mostraram-se especialmente promissores, integrando frutíferas, espécies medicinais e PANC em modelos resilientes e de maior biodiversidade.

Essa abordagem evidencia que sustentabilidade e rentabilidade não são conceitos opostos. Pelo contrário, quando articulados de forma planejada, podem caminhar juntos e fortalecer a base produtiva da agricultura familiar.

Geração de renda e fortalecimento local

Se por um lado as PANC ampliam o repertório alimentar, por outro abrem novas possibilidades de mercado. A comercialização em feiras, circuitos curtos, cooperativas e até no processamento artesanal cria oportunidades de agregação de valor. Assim, o agricultor não apenas diversifica a produção, mas também amplia suas fontes de renda.

Entretanto, o avanço desse segmento depende da continuidade de ações de capacitação e demonstração prática. Ao aproximar pesquisa científica, extensão rural e saberes tradicionais, iniciativas como o Dia de Campo contribuem para consolidar as PANC como parte integrante de sistemas agrícolas mais diversos, resilientes e socialmente justos.

Dessa forma, o que antes era considerado periférico na produção agrícola passa a ocupar um lugar estratégico. As Plantas Alimentícias Não Convencionais revelam que inovação, muitas vezes, significa redescobrir o que sempre esteve presente no território — e reconhecer, aliás, que a sustentabilidade pode começar justamente pelo que brota espontaneamente no campo.

Fonte: Embrapa

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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