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Pecuária brasileira consome mais água que cinco estados juntos — e o país pode estar “exportando” recursos hídricos

by Redação Agronamidia
2 de fevereiro de 2026
in Pecuaria
Pecuária brasileira consome mais água que cinco estados juntos — e o país pode estar “exportando” recursos hídricos

A produção de carne bovina e soja, dois pilares da balança comercial brasileira, está diretamente conectada a um recurso cada vez mais estratégico: a água. Embora o Brasil seja reconhecido por sua abundância hídrica, uma análise recente da iniciativa internacional Trase aponta que parte significativa desse volume está sendo incorporada às cadeias globais de commodities — muitas vezes sem que consumidores ou investidores percebam.

De acordo com o levantamento, a pecuária brasileira utiliza entre 10,1 e 10,4 bilhões de metros cúbicos de água por ano. O número impressiona não apenas pelo tamanho absoluto, mas sobretudo pela comparação: trata-se de um volume superior ao consumo somado das populações de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e Distrito Federal, estimado em 7,8 bilhões de metros cúbicos anuais.

Entretanto, quando se observa a soja, o cenário ganha outra escala. A produção do grão demanda entre 188 e 206 bilhões de metros cúbicos por ano, majoritariamente provenientes das chuvas. Ainda assim, o estudo identifica crescimento da irrigação em áreas mais secas, o que eleva a pressão sobre bacias já vulneráveis.

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Os dados foram construídos a partir de informações do MapBiomas e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), considerando o período de 2015 a 2017, e detalhados pela plataforma Trase em parceria com reportagens da Folhapress.

Uso indireto e a água que viaja junto com a commodity

Segundo os pesquisadores, a maior parte desse consumo não aparece nos relatórios corporativos tradicionais. Empresas costumam contabilizar apenas o uso direto em frigoríficos ou armazéns, mas deixam de considerar o chamado uso indireto — aquele que ocorre nas fazendas e nas bacias hidrográficas onde a matéria-prima é produzida.

“Queremos mostrar justamente o uso indireto de água, aquele consumido através de produtos”, afirma o pesquisador sênior do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo, Michael Lathuillière, um dos autores do estudo.

Sob essa ótica, a exportação de carne e soja também representa a exportação de recursos hídricos. “O Brasil, de certa forma, está exportando recursos hídricos”, complementa Lathuillière.

A lógica é simples, porém pouco discutida: cada tonelada embarcada carrega embutida uma pegada hídrica significativa, o que conecta consumidores internacionais às condições ambientais de bacias brasileiras muitas vezes distantes dos grandes centros urbanos.

Pressão sobre bacias estratégicas

A análise também evidencia que grandes comerciantes globais de carne bovina, como JBS, Minerva, Marfrig e Mataboi, dependem de regiões hidrográficas como Paraná, Tocantins-Araguaia e Amazônica. São áreas que, segundo dados da ANA, já enfrentam níveis elevados ou críticos de escassez.

No caso da soja, traders como Bunge, ADM, Cargill, Louis Dreyfus e Cofco concentram parte relevante da produção irrigada na bacia do rio São Francisco, uma das mais pressionadas do país.

Além disso, embora o gado consuma água principalmente por meio de pequenos reservatórios nas propriedades, cerca de dois terços desse volume se perde por evaporação. Isso reduz a disponibilidade para abastecimento humano, manutenção de ecossistemas e geração de energia, ampliando a competição pelo recurso.

“Há uma questão em relação às outorgas de captação de água no Brasil, em que muitos reservatórios são construídos sem autorização”, alerta Lathuillière. “Existe um problema político e de gestão nas fazendas”.

Escassez e desmatamento: uma sobreposição preocupante

Outro ponto sensível identificado pelo estudo é a sobreposição entre escassez hídrica e avanço do desmatamento. No oeste da Bahia, região do Matopiba, levantamentos apontam mais de sete mil quilômetros de rios e riachos que deixaram de correr de forma perene, impactados pela expansão agrícola e pela retirada intensiva de água.

Na Amazônia, pesquisas citadas pela Trase indicam que o desequilíbrio climático associado ao desmatamento gerou prejuízos superiores a US$ 1 bilhão à produção de soja e milho entre 2006 e 2019. Já no Cerrado, a vazão dos rios caiu 27% desde os anos 1970, enquanto as chuvas diminuíram 21%.

Essa combinação cria um ciclo delicado: menos vegetação reduz a capacidade de retenção de água no solo, o que, por sua vez, diminui a regularidade das chuvas e aumenta a dependência de irrigação. Consequentemente, a produção agrícola torna-se mais vulnerável a eventos extremos e oscilações climáticas.

Riscos econômicos e necessidade de coordenação

Para os autores do relatório, a crescente exposição das cadeias de carne e soja à escassez hídrica não é apenas uma questão ambiental, mas também econômica. A volatilidade climática pode comprometer produtividade, elevar custos e impactar a competitividade internacional.

Nesse contexto, empresas, governos e instituições financeiras passam a ter papel central. O estudo sugere a adoção de metas claras de uso da água ao longo das cadeias de suprimentos, maior transparência ambiental e alinhamento do crédito rural a práticas que preservem recursos hídricos.

“Exportadores, governos e financiadores têm um papel a desempenhar”, afirma o relatório da Trase. “A ação coordenada pode reduzir riscos e contribuir para sistemas alimentares mais resilientes”.

Assim, o debate sobre água no agronegócio deixa de ser apenas técnico e passa a integrar discussões estratégicas sobre segurança alimentar, reputação internacional e sustentabilidade de longo prazo. Afinal, em um cenário de mudanças climáticas e competição global por recursos naturais, a água pode se tornar tão estratégica quanto a própria commodity que ela ajuda a produzir.

  • Redação Agronamidia

    A Redação Agronamidia é composta por uma equipe multidisciplinar de jornalistas, analistas de mercado e especialistas em comunicação rural. Nosso compromisso é levar informações precisas, técnicas e atualizadas sobre os principais pilares do agronegócio brasileiro: da economia das commodities à inovação no campo e sustentabilidade ambiental. Sob a gestão da Editora CFILLA, todo o conteúdo passa por um rigoroso processo de curadoria e verificação de fatos, garantindo que o produtor rural e os profissionais do setor tenham acesso a notícias com alto valor estratégico e rigor técnico.

    E-mail: [email protected]

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