O dinheiro está na conta. Mais de 2,4 mil produtores rurais da Amazônia Legal acabam de receber o maior lote de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) já distribuído pelo Projeto Floresta+ Amazônia, iniciativa do Governo Federal executada com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). São R$ 18 milhões destinados a quem provou que é possível produzir sem derrubar. Os valores individuais variam entre R$ 1.500 e R$ 28 mil, dependendo do tamanho da área conservada e da regularidade ambiental da propriedade.
Mais de 90 mil hectares de floresta nativa seguem intactos graças ao trabalho desses agricultores, espalhados por oito estados. Outro dado relevante: 43% dos beneficiários são mulheres, responsáveis pela preservação de quase 40 mil hectares. O perfil dos contemplados mostra que a política pública acertou o alvo. Chegou onde deveria chegar.
PSA não é assistencialismo, é remuneração por resultado
A lógica é simples. O produtor mantém o Cadastro Ambiental Rural (CAR) regular, conserva a vegetação nativa da propriedade e recebe por isso. Sem burocracia para usar o dinheiro. Sem prestação de contas obrigatória. “Uma grande parte dos agricultores usa o PSA para reinvestir na propriedade com cercamento, compra de sementes, ferramentas e até matrizes para diversificar a produção”, explicou Carlos Casteloni, assessor técnico do Floresta+ Amazônia.
O recurso funciona como capital de giro para quem já opera no limite da margem. Muitos produtores investem em melhorias estruturais, outros garantem o básico que faltava para ampliar a escala. Há quem use para cercar nascentes, proteger igarapés ou reformar a casa. A decisão é do produtor. O critério é a necessidade da porteira para dentro.
Esse é o primeiro lote de 2026 do edital 02/2024, que já destinou mais de R$ 30 milhões desde o lançamento. As inscrições seguem abertas até junho, e novos pagamentos estão programados para os próximos meses. Os repasses são feitos diretamente pelo Banco da Amazônia (Basa) na conta informada no momento da inscrição, com comunicação via WhatsApp ou e-mail pela equipe estadual do projeto.
Quem está recebendo sabe o valor da floresta
Maria Pimentel Cruz, 68 anos, produtora em São Gabriel da Cachoeira (AM), se inscreveu com a irmã e a sobrinha no mutirão realizado em agosto de 2024. O dinheiro vai para melhorias na casa do sítio e manutenção do igarapé que corta a propriedade. “A gente luta muito para manter uma roça de mandioca e o igarapé. Dá trabalho colher, fazer a farinha, levar para vender, então quando a gente recebe um dinheiro extra, dá muita satisfação. Fiquei muito feliz mesmo, dá um ânimo a mais”, afirmou.
No Pará, Nazareno Castro, 58 anos, proprietário do sítio Poacê em Moju, resume a filosofia que sustenta o modelo. “Há 30 anos tiramos da floresta nosso sustento e sossego. Receber um recurso para preservar é um prêmio que só nos incentiva ainda mais e mostra que estamos no caminho certo.” Para ele, o PSA não muda a forma de produzir. Apenas reconhece o que já estava sendo feito.
A política pública que chegou no campo
Para Roberta Cantinho, diretora de Políticas de Controle do Desmatamento e Incêndios do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Floresta+ representa o avanço concreto de uma política que alcança quem está na linha de frente da conservação. “Com o PSA, o Governo Brasileiro reconhece o trabalho e o esforço das famílias que produzem em suas pequenas propriedades e mantêm a floresta em pé”, destacou.
Além disso, o efeito vai além do bolso. A diretora reforça que os agricultores passam a se enxergar como parte da solução ambiental do país. “Por meio do PSA do Projeto Floresta+ Amazônia, os agricultores reconhecem as vantagens da conservação e se sentem orgulhosos por fazer parte dos esforços para vencer o desmatamento e manter a Amazônia conservada.”
O que vem pela frente
Com inscrições abertas até junho, o projeto deve ampliar o número de beneficiários nos próximos lotes. A expectativa é que mais produtores entendam a mecânica e busquem regularizar suas propriedades para acessar o recurso. O modelo está funcionando porque remunera comportamento, não promessa. Paga quem entrega floresta conservada e CAR regularizado.
Para os próximos meses, a aposta é que o PSA fortaleça o mix de renda nas pequenas propriedades e mostre que a conservação não é entrave para a produção. É parte do modelo de negócio. Quem preserva ganha duas vezes: pela floresta em pé e pelo que tira dela de forma sustentável.
Fonte: Revista Forum



