As maçãs desta safra estão mais doces por uma razão que o mercado brasileiro ainda não aprendeu a valorizar

Fenômeno chamado "pingo de mel" transforma Fujis em frutas premium no Japão e volta a aparecer no Brasil com força neste ano

As maçãs desta safra estão mais doces por uma razão que o mercado brasileiro ainda não aprendeu a valorizar

Quem abrir uma maçã Fuji nos próximos dias pode se deparar com algo incomum: pequenas manchas amareladas e translúcidas na polpa, próximas ao miolo, com sabor adocicado mais intenso que o restante da fruta. Em vez de defeito, trata-se de um sinal de qualidade raro, chamado de “pingo de mel”, resultado de condições climáticas excepcionais que marcam a safra brasileira de 2026.

O fenômeno ocorre quando há acúmulo natural de açúcares na polpa da maçã durante a fase final de maturação, especialmente quando a colheita é mais tardia e as temperaturas estão mais baixas. Neste ano, a combinação entre um ciclo produtivo alongado e uma safra recorde criou as condições ideais para que esse processo acontecesse em escala pouco comum nos pomares nacionais.

O que está por trás do sabor mais intenso

A Fuji é a variedade mais propensa a desenvolver o pingo de mel entre todas as cultivadas no Brasil. Quando o clima colabora, com noites frias prolongadas e maturação gradual, os açúcares produzidos pela fotossíntese não são totalmente convertidos em amido nem exportados para outras partes da planta. Eles se acumulam na polpa em forma de sorbitol, um composto que confere aquela textura suculenta e o sabor mais adocicado característico das frutas com esse fenômeno.

“Tivemos um ciclo mais alongado, com colheita ocorrendo de forma mais tardia e sob temperaturas mais baixas, favorecendo o acúmulo natural de açúcares na polpa, o que contribuiu para uma presença mais expressiva do pingo de mel nesta safra. O resultado são maçãs com sabor mais intenso, maior doçura bem equilibrada pela acidez natural da fruta e excelente qualidade sensorial”, afirma Moisés Lopes de Albuquerque, diretor-executivo da Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM).

Além do fator climático, o volume histórico desta safra contribuiu diretamente para o fenômeno. A estimativa da ABPM é de que a produção brasileira de maçãs em 2026, concentrada em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, ficará entre 1,1 milhão e 1,2 milhão de toneladas — cerca de 40% acima das 850 mil toneladas colhidas no ciclo anterior. Com mais frutas nos pomares, a colheita naturalmente se estende por mais semanas, e as maçãs que permanecem mais tempo na árvore acumulam mais açúcar.

Quando o produtor consegue “adivinhar” antes de colher

Mariozan Corrêa cultiva 14 hectares de pomares em São Joaquim (SC) e colheu 800 toneladas nesta safra, 25% a mais que no ano anterior. Cerca de metade de sua produção é da variedade Fuji, e ele estima que o pingo de mel esteja presente em até 20% dessas frutas. Com anos de experiência nos pomares, Corrêa desenvolveu a habilidade de identificar as maçãs com pingo de mel antes mesmo de cortá-las.

“Existem diferenças bastante sutis na coloração da maçã, como se estivesse no fundo um rajado entre vermelho e amarelo”, descreve o produtor. É uma leitura que depende de olhar treinado e intimidade com a fruta, mas que mostra como o pingo de mel não é simplesmente fruto do acaso.

Corrêa faz ainda um alerta importante para quem quiser aproveitar essa raridade: o pingo de mel não dura para sempre. Se a maçã ficar em câmara fria por mais de 30 dias, o fenômeno desaparece. O açúcar acumulado se redistribui ou é metabolizado, e a fruta perde aquela característica especial. Para quem encontrar uma Fuji com pingo de mel nas prateleiras, o melhor a fazer é consumi-la logo.

Valorizada no Japão, desconhecida no Brasil

No Japão, país de origem da variedade Fuji, o pingo de mel é um atributo de qualidade reconhecido e valorizado. Maçãs que apresentam o fenômeno são classificadas como frutas premium em diversas redes varejistas asiáticas e chegam a ser comercializadas com preços consideravelmente maiores. A lógica é simples: se a fruta tem mais doçura, mais aroma e textura superior, ela vale mais.

No Brasil, o caminho ainda é o oposto. Em vez de valorização, o setor enfrenta rejeição. Em 2017, uma safra com características similares às de 2026 gerou reclamações de compradores e supermercados que desconheciam o fenômeno.

“Em 2017, tivemos uma safra recorde em condições parecidas com a atual, quando houve muita formação do pingo de mel. E muitos compradores, inclusive supermercados, reclamavam dessas diferenças, dizendo que eram danos de congelamento ou transporte. Tivemos que fazer um forte trabalho de esclarecimento”, lembra Francisco Schio, presidente da ABPM e proprietário da Agropecuária Schio, em Vacaria (RS), onde cultiva 3,3 mil hectares de pomares.

Schio também explica por que o pingo de mel não é uma constante nas prateleiras. O produtor raramente deixa os frutos na árvore além do ponto ideal de colheita por conta dos riscos climáticos, especialmente o granizo. “Se todo ano nós deixássemos uma parte do pomar para colher mais tarde, isso iria ocorrer. Mas o produtor não quer enfrentar riscos climáticos, então procura fazer a colheita o mais rápido possível. Por isso só temos o pingo de mel em grande quantidade em anos com alta produção”, explica.

Comunicação como estratégia de mercado

Diante do cenário, parte do setor decidiu agir. A cooperativa Frutas de Ouro, de São Joaquim, passou a incluir folhetos explicativos nas embalagens das maçãs colhidas nas últimas semanas da safra da Fuji, informando os consumidores sobre o pingo de mel e o que ele representa em termos de qualidade.

A iniciativa parte de Marciano Bittencourt, diretor da cooperativa, que colheu cerca de 800 toneladas em seus 15 hectares de pomar neste ano, volume 40% superior ao de 2025. Da sua produção de Fuji, estima que aproximadamente 20% das frutas apresentam o fenômeno.

A ação da cooperativa aponta para um caminho que o setor como um todo precisará percorrer se quiser transformar o pingo de mel de curiosidade em diferencial comercial: educar o consumidor. No Japão, esse trabalho foi feito ao longo de décadas. No Brasil, a safra de 2026 pode ser o ponto de partida para uma conversa que o mercado de frutas premium do país ainda está longe de ter.

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