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A abóbora que nasceu diferente e pode virar matéria-prima para remédios, cosméticos e alimentos

Pesquisa da UEPG desenvolveu, em duas décadas, uma semente sem casca com alta concentração de cucurbitacina, substância com ação vermífuga e potencial antitumoral que abre caminho para múltiplos mercados

Escrito por: Agronamidia Revisão: Derick Machado
4 de junho de 2026
in Agricultura
Foto: Jessica Natal/UEPG

Foto: Jessica Natal/UEPG

No Laboratório de Melhoramento Genético da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no Paraná, uma pesquisa silenciosa de duas décadas chegou a um resultado que pode movimentar diferentes setores da indústria brasileira. O professor José Raulindo Gardingo e sua equipe desenvolveram um genótipo de abóbora capaz de produzir sementes completamente sem casca, uma característica inédita no mercado nacional, com aplicações que vão da alimentação funcional à indústria farmacêutica.

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A diferença entre essa semente e as variedades comerciais disponíveis hoje é imediata e visível. Basta colocá-las lado a lado. “A nossa semente é inteiramente sem casca, não precisa tirar a casca com o dente ou com a unha, e já vem pronta para ser usada na indústria alimentícia”, descreve Raulindo. Mas a praticidade é apenas a camada mais superficial da descoberta.

O que há dentro dessa semente

O elemento que torna a pesquisa estrategicamente relevante para além da culinária é a cucurbitacina, um composto natural presente nas cucurbitáceas — família botânica que inclui abóboras, pepinos e melões — e que, nas sementes sem casca desenvolvidas pela UEPG, aparece em concentração significativamente maior do que nas variedades convencionais.

A substância tem ação vermífuga comprovada pela literatura científica e documentada pela Embrapa desde 2019, quando um estudo da empresa apontou o efeito antiparasitário das sementes de abóbora descascadas. A novidade da pesquisa paranaense está em eliminar a etapa do descascamento por completo: a semente já nasce sem a estrutura lenhosa externa, o que simplifica o processamento e potencializa o aproveitamento do composto ativo.

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Além do uso como vermífugo, o professor Raulindo menciona que a literatura científica já aponta potencial da cucurbitacina no combate a tumores, uma frente de pesquisa que amplia o interesse farmacêutico pelo produto. A semente também permite extração de óleo de alta qualidade ou consumo in natura, o que a posiciona simultaneamente em mercados distintos: alimentos funcionais, cosméticos, suplementação e saúde.

Duas décadas, uma parceria e um genótipo brasileiro

A origem da pesquisa remonta a uma colaboração internacional iniciada há vinte anos entre Raulindo e pesquisadores da Áustria, país onde sementes de abóbora sem casca já eram cultivadas desde o século passado e integram uma tradição gastronômica consolidada, especialmente na produção do chamado óleo de abóbora da Estíria.

“Recebi algumas sementes e já comecei os cruzamentos por aqui, com o objetivo de produzir um genótipo de abóbora brasileira que conseguisse produzir essa semente”, conta o professor. O desafio estava em adaptar a mutação genética responsável pela ausência da casca — um evento natural no DNA das cucurbitáceas — às condições climáticas e agrícolas brasileiras, garantindo que o traço se mantivesse estável ao longo das gerações e em diferentes populações da planta.

O processo envolveu ciclos sucessivos de intercruzamento genético, com acompanhamento rigoroso de cada safra cultivada na fazenda escola da UEPG. Após duas décadas de trabalho, o resultado é um material genético estável, no qual as sementes nascem todas sem casca dentro de diferentes populações e tipos de abóbora. “Depois de 20 anos, chegamos em um resultado mais satisfatório, com sementes que nascem todas sem casca, dentro de diferentes populações e tipos de abóbora”, comemora Raulindo.

Da lavoura ao mercado: o que falta para chegar às prateleiras

Além das propriedades da semente em si, um dado técnico é decisivo para a viabilidade comercial do projeto: a germinação. Sementes sem casca poderiam, em tese, apresentar maior vulnerabilidade no solo pela ausência da proteção natural. Os resultados mostram o contrário. O professor Rodrigo Mattielo, também pesquisador do projeto, confirma que todas as sementes germinam normalmente. “Essas sementes germinam, então estamos num caminho positivo para apresentá-las aos pequenos produtores e ao mercado do agro”, aponta Mattielo.

A equipe está na fase final dos testes laboratoriais, etapa que precede o registro formal no Ministério da Agricultura. Após a submissão, o produto passa pela avaliação de viabilidade antes de obter autorização para circulação comercial. A expectativa dos pesquisadores é de aprovação, sustentada pela ausência de equivalente no mercado brasileiro. O potencial de distribuição não se limita ao território nacional: Raulindo menciona a perspectiva de exportação e de fornecimento para extração industrial de óleo, segmento em crescimento global.

O perfil sensorial da semente também joga a favor. Em comparação com variedades comerciais de casca mais escura, frequentemente associadas a sabor amargo, a semente da UEPG apresenta sabor descrito pelos pesquisadores como mais agradável — uma característica relevante tanto para o consumo direto quanto para produtos alimentícios processados.

O que começou como uma parceria acadêmica entre Ponta Grossa e a Europa pode resultar em um insumo com identidade genuinamente brasileira, adaptado ao clima nacional e com potencial de inserção em cadeias industriais de alto valor. A abóbora, cultura já consolidada na agricultura familiar do país, pode ganhar uma nova dimensão produtiva a partir de dentro de si mesma.

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