Em 2024, o Paraná produziu 5.022 toneladas de pinhão, o maior volume já registrado na série histórica do estado. O número representa um crescimento de 60% em relação a 2015, quando a produção ficou em 3.130 toneladas, e coloca o Paraná em posição de liderança nacional com folga: a produção paranaense supera em 30% a de Santa Catarina, segundo colocado no ranking com 3,7 mil toneladas, conforme dados do IBGE. Por trás desse crescimento, há uma cadeia que vai da floresta de araucária ao prato dos estudantes nas escolas públicas estaduais.
Entre junho e agosto, o pinhão entra nos cardápios da rede estadual de ensino como parte de uma iniciativa que, nos últimos sete anos, distribuiu mais de 36 toneladas do alimento para 470 escolas em 86 municípios paranaenses, movimentando R$ 311 mil provenientes da agricultura familiar. Só nos anos de 2024 e 2025, foram distribuídas mais de 12 toneladas para 344 escolas em 73 municípios, com previsão de continuidade em 2026.
Cultura no prato, economia no campo
A semente da araucária carrega um duplo peso no Paraná: é símbolo gastronômico de uma região e fonte de renda para famílias rurais que dependem da colheita sazonal. O Valor Bruto da Produção (VBP) real do pinhão no estado saltou de R$ 13,8 milhões em 2015 para R$ 25,8 milhões em 2024, segundo dados da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab). Esse crescimento não é acidental: reflete tanto o aumento da demanda quanto políticas que conectam o produto a canais institucionais de comercialização, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Para o secretário de Estado da Educação, Roni Miranda, a alimentação escolar cumpre um papel que vai além da nutrição. “Ao inserir o pinhão nos cardápios, aproximamos os estudantes de um alimento tradicional do Paraná, ao mesmo tempo em que valorizamos a produção local e ampliamos a oferta de refeições nutritivas nas escolas”, afirma.
A região Centro-Sul concentra a maior parte da produção. O município de Pinhão, na região de Guarapuava, lidera com 880 toneladas em 2024, o equivalente a 17,5% de toda a produção estadual. Inácio Martins, na região de Irati, aparece em segundo lugar com 750 toneladas (14,9%), seguido por Turvo, também na região de Guarapuava, com 440 toneladas (8,8%). Juntos, os três municípios respondem por 42% do pinhão produzido no Paraná.
Versatilidade na cozinha escolar
Dentro das escolas, o pinhão chega in natura e encontra nas equipes de alimentação a criatividade necessária para transformá-lo em pratos que os estudantes de fato comem. Sopas, refogados, tortas salgadas, risotos e farofas são algumas das preparações que ganham a semente da araucária como ingrediente principal ou como complemento.
“A versatilidade do produto permite sua inclusão em receitas adaptadas aos hábitos alimentares dos estudantes durante os meses mais frios do ano”, explica Elissandra Brito, nutricionista do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional (Fundepar). Além da adaptabilidade culinária, o pinhão possui composição nutricional relevante: é rico em fibras, vitaminas e minerais, fornece energia e pode substituir parcialmente ingredientes como arroz, batata, mandioca e milho nas preparações.
O inverno como janela de oportunidade
No Colégio Estadual Professor Máximo Asinelli, em Curitiba, a chegada do frio e a chegada do pinhão ao cardápio caminham juntas. A experiência observada na escola ilustra o que os dados regionais confirmam: o alimento tem boa aceitação e carrega um simbolismo afetivo que facilita sua recepção entre os jovens.
Delirio Bonin, diretor da unidade, descreve a reação dos estudantes com uma frase que resume o alcance cultural da iniciativa. “Para o colégio, é mais uma opção, principalmente para este período de inverno. Os alunos gostam e falam que é acolhedor como a casa da vovó.”
Essa percepção não é trivial do ponto de vista da política pública. Quando um programa de alimentação escolar consegue gerar identificação cultural e aceitação genuína entre os estudantes, ele cumpre um papel que vai além da gestão nutricional: fortalece o senso de pertencimento e a relação dos jovens com a produção regional. No caso do pinhão, esse efeito se soma ao benefício econômico direto para os agricultores familiares que abastecem a rede estadual durante a temporada de colheita.
Com recordes de produção, cadeia familiar estruturada e presença crescente nas escolas públicas, o pinhão paranaense consolida uma trajetória que conecta floresta, campo e sala de aula em um mesmo ciclo produtivo e cultural.
