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Soja 2025/26: colheita no ritmo mais lento em cinco anos pressiona safrinha de milho e acende alerta nas regiões tardias

Com 51% da área colhida e janela da safrinha se fechando, produtores do Sul e do Matopiba enfrentam problemas climáticos opostos que ameaçam a qualidade e o volume da safra

by Derick Machado
9 de março de 2026
in Agro
Soja 2025/26: colheita no ritmo mais lento em cinco anos pressiona safrinha de milho e acende alerta nas regiões tardias

A colheita da soja brasileira na safra 2025/26 avança, mas não no ritmo que o calendário agrícola exigiria. Até o último dia 5, 51% da área cultivada no país havia sido colhida, ante 39% na semana anterior e 61% registrados no mesmo período da safra passada, segundo levantamento da AgRural. O avanço semanal foi expressivo, porém insuficiente para reverter o atraso acumulado: o ritmo atual é o mais lento desde a safra 2020/21, e as consequências já se propagam para o milho safrinha.

O dado por si só já seria suficiente para acender o alerta. Contudo, o que torna o quadro mais delicado é a combinação de problemas climáticos opostos que afetam as principais regiões de calendário tardio do país exatamente no momento em que a pressão do tempo é maior.

Sul e Matopiba: dois problemas climáticos, o mesmo resultado

No Rio Grande do Sul, a estiagem voltou a preocupar os produtores. As lavouras ainda em campo enfrentam déficit hídrico em um estágio crítico, e a perspectiva é de novos cortes de produtividade caso as chuvas não se regularizem nas próximas semanas. O estado, que já acumula histórico de perdas expressivas por eventos climáticos extremos nas últimas safras, não tem margem para absorver mais uma frustração.

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No Matopiba, a situação segue o caminho oposto, com excesso de chuvas dificultando a entrada das máquinas nas lavouras e comprometendo a qualidade dos grãos ainda no campo. A região, que concentra parte relevante da expansão agrícola brasileira nos últimos anos, enfrenta o paradoxo de uma safra potencialmente produtiva, mas ameaçada justamente pela incapacidade logística de colher no tempo certo. Grãos expostos a umidade excessiva por períodos prolongados perdem qualidade comercial e reduzem o valor final recebido pelo produtor.

Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, entra na reta final da colheita com desempenho relativamente mais ordenado, mas o ritmo geral do Centro-Sul já não comporta muito otimismo para a recuperação integral do calendário.

Safrinha de milho: janela se fecha com produtores ainda nas máquinas

O atraso na colheita da soja transfere diretamente sua pressão para o milho safrinha, e os números confirmam essa dinâmica. O plantio da safrinha 2026 atingiu 82% da área estimada para o Centro-Sul até o dia 5, contra 66% uma semana antes e 92% no mesmo período do ano passado. O avanço semanal foi intenso, o que demonstra o esforço dos produtores para acelerar as operações, mas o ritmo ainda é o mais lento desde 2022.

A janela ideal de plantio do milho safrinha tem uma lógica agronômica clara: semeaduras realizadas fora do período recomendado aumentam a exposição da cultura ao veranico de julho e agosto, reduzindo o potencial produtivo de forma significativa. Cada dia perdido nessa janela representa risco real de queda de rendimento, e não uma variação marginal.

Além do atraso no plantio, existem focos de preocupação específicos no Paraná e em Mato Grosso do Sul por falta de umidade no solo, o que pode comprometer a germinação e o estabelecimento inicial das lavouras de milho recém-semeadas nessas regiões.

O milho verão 2025/26 também segue abaixo do ritmo histórico: 42% colhido no Centro-Sul até o dia 5, contra 36% na semana anterior e 54% no mesmo período da safra passada.

O efeito cascata sobre o mercado de milho

O atraso nas colheitas de soja e milho verão limita a oferta disponível no mercado físico nacional. Enquanto os produtores mantêm o foco nas operações de campo e no escoamento da soja, a oferta de milho no mercado de balcão segue restrita, especialmente nas regiões consumidoras. Essa dinâmica já se reflete nos preços: em Campinas (SP), o indicador do milho do Cepea registrou cotação de R$ 69,53 por saca de 60 quilos no último pregão de fevereiro, acumulando alta de 5,19% no mês.

Nas regiões ofertantes do Sul, onde a colheita do milho verão avança, os preços seguem pressionados para baixo, mas a retenção pelos produtores tem evitado desvalorizações mais acentuadas. A perspectiva de retomada das cotações no curto prazo sustenta a decisão de segurar o grão no campo ou nos armazéns.

Com março consolidado e abril se aproximando, o mercado acompanha com atenção o desfecho das regiões tardias. O volume final da soja 2025/26 e a qualidade dos grãos colhidos nas áreas afetadas por clima adverso definirão o tom das negociações nas próximas semanas, ao mesmo tempo em que o milho safrinha enfrenta seu período mais crítico de estabelecimento no campo.

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  [email protected]

Via: Estadão Conteúdo

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