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Técnica de ordenha de coelhas abre nova fase para a cunicultura brasileira

Protocolo inédito permite coletar leite natural para formulação de alimento artificial e pode reduzir a alta mortalidade de filhotes

by Derick Machado
10 de dezembro de 2025
in Pecuaria
Técnica de ordenha de coelhas abre nova fase para a cunicultura brasileira
Resumo

• A UEM desenvolveu o primeiro protocolo brasileiro de ordenha de coelhas, permitindo coletar leite natural para pesquisas.
• A técnica surgiu da necessidade de reduzir a mortalidade de láparos causada por subnutrição em ninhadas numerosas.
• O protocolo combina estímulo natural do filhote, indução hormonal e sucção controlada, respeitando o bem-estar da fêmea.
• Com a coleta estabelecida, inicia-se a formulação de leite artificial, essencial para suplementar filhotes e aumentar a eficiência produtiva.
• O avanço pode impulsionar a cunicultura brasileira, permitindo a criação do primeiro leite artificial nacional e fortalecendo o setor.

A criação de coelhos, que há tempos se destaca por sua eficiência reprodutiva e valor nutricional, está prestes a entrar em uma nova fase no Brasil. Um protocolo pioneiro de ordenha de coelhas, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), promete transformar a cunicultura ao viabilizar, pela primeira vez, a produção de leite artificial da espécie. O avanço pode representar um marco não apenas para a produtividade do setor, mas também para o bem-estar dos animais, especialmente dos láparos — nome dado aos filhotes —, que sofrem com altas taxas de mortalidade no período de desmame.

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A ideia nasceu da observação prática no rebanho mantido pela UEM na Fazenda Experimental de Iguatemi. Com cerca de 600 animais, incluindo 100 fêmeas matrizes, o ambiente permitiu um monitoramento rigoroso das perdas. A constatação foi clara: a subnutrição dos filhotes, sobretudo em ninhadas numerosas, estava entre os principais desafios. Embora uma coelha possa parir de 10 a 16 filhotes, ela dispõe apenas de oito tetas, o que impõe um limite físico à amamentação natural. Com isso, até 20% dos láparos não sobrevivem ao período de 30 a 40 dias.

A busca por uma solução passou necessariamente pela coleta do leite natural da fêmea, uma tarefa que, à primeira vista, parece simples, mas se revelou o maior entrave do estudo. O leite da coelha só é liberado diante do estímulo direto do filhote, que ativa o reflexo de descida com sucção, calor corporal e movimentos da língua. Métodos convencionais, como massagens ou seringas, mostraram-se ineficazes. O caminho seria, então, entender profundamente a fisiologia do animal para simular esse ambiente natural com mínima interferência.

Foi o que levou os pesquisadores a desenvolver um protocolo exclusivo, que combinou estímulo do filhote, aplicação precisa de hormônios e uso de equipamento de sucção. O processo exigiu uma adaptação criteriosa de práticas aplicadas na bovinocultura, respeitando a delicadeza da espécie e ajustando as dosagens à realidade corporal do coelho. O resultado foi a criação da primeira técnica funcional de ordenha de coelhas no país, respeitando o bem-estar dos animais e permitindo a coleta de amostras em volume suficiente para análises laboratoriais de lactose, aminoácidos e outros nutrientes.

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Com o desafio da ordenha superado, a pesquisa avançou para sua etapa mais promissora: o desenvolvimento de um leite artificial próprio para láparos. A proposta é suprir a deficiência nutricional nos primeiros dias de vida e garantir que todos os filhotes, independentemente do tamanho da ninhada, recebam alimento suficiente para um crescimento saudável. A expectativa é de que essa suplementação reduza significativamente as mortes precoces e aumente a eficiência produtiva da cunicultura.

Além do impacto direto na saúde dos filhotes, o leite artificial pode representar um salto na sustentabilidade econômica do setor. A criação de coelhos já é reconhecida por sua viabilidade em pequenos espaços, sua dieta baseada em resíduos vegetais e sua capacidade de gerar múltiplos subprodutos. Com um ciclo reprodutivo de apenas 30 dias e a possibilidade de desmamar até 50 animais por ano por matriz, a produção ganha escala — desde que as condições nutricionais sejam garantidas desde o início da vida.

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Atualmente, países como os Estados Unidos, membros da União Europeia e algumas nações asiáticas já dispõem de fórmulas comerciais para alimentação de láparos, mas o Brasil ainda não conta com nenhum produto nacional do tipo. O avanço da pesquisa da UEM pode mudar esse cenário. Caso a fase de testes de aceitação tenha êxito, o país estará mais próximo de lançar seu primeiro leite artificial de coelha, com potencial até para registro de patente.

Segundo os dados do IBGE, o Paraná já ocupa a terceira posição no ranking nacional da criação de coelhos, com um plantel estimado em 33 mil animais. Embora ainda seja um setor de nicho, a cunicultura avança tanto no campo produtivo quanto científico, com crescente valorização da carne de coelho pelo seu perfil nutricional — rico em proteínas, com baixo colesterol e presença de ômega 3 e 6 — e pelo papel fundamental que a espécie desempenha em pesquisas biomédicas.

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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