A escassez de água doce já empurra produtores rurais ao redor do mundo para alternativas cada vez mais heterodoxas de irrigação. Entre elas, o reúso de águas residuais tratadas ganhou força como resposta ao avanço das secas — mas uma pesquisa da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, adiciona um elemento novo e incômodo a esse debate: hortaliças como tomate, cenoura e alface são capazes de absorver e acumular resíduos de medicamentos psicoativos presentes nessas águas, inclusive compostos usados no tratamento de transtornos mentais.
Os resultados colocam em evidência não apenas a qualidade do produto final que chega à mesa do consumidor, mas também os limites do tratamento convencional de efluentes e a urgência de regulamentações mais específicas para o setor agrícola.
Folhas concentram mais do que os frutos
A pesquisa analisou como diferentes partes das plantas respondem à exposição aos compostos farmacêuticos presentes na água de irrigação. As folhas de tomate apresentaram concentração desses compostos mais de 200 vezes superior à registrada nos frutos, enquanto as folhas de cenoura acumularam sete vezes mais do que as raízes comestíveis. Esse padrão revela que a parte da planta mais exposta ao sol e responsável pela transpiração funciona como um reservatório involuntário de substâncias que o vegetal simplesmente não consegue eliminar.
“As plantas não possuem um mecanismo bem desenvolvido para excretar esses compostos farmacêuticos. Elas não conseguem se livrar dos resíduos facilmente pela urina, como os humanos fazem”, explicou Daniella Sanchez, autora principal do estudo.
Essa limitação biológica é decisiva para entender o problema. Ao contrário dos organismos animais, que dispõem de sistemas de filtração e excreção para metabolizar e eliminar substâncias estranhas, as plantas retêm o que absorvem. Consequentemente, quanto mais prolongada for a exposição à água residual, maior tende a ser o acúmulo desses compostos nos tecidos vegetais.
Reúso como necessidade, não como opção
O pano de fundo desse estudo é tão relevante quanto os resultados em si. A pressão sobre os recursos hídricos globais tem sido crescente. Secas mais frequentes e prolongadas, associadas às mudanças climáticas, comprimem a disponibilidade de água doce para a agricultura, que já responde por cerca de 70% do consumo mundial desse recurso. Nesse contexto, o reúso de águas residuais tratadas deixou de ser uma alternativa marginal e passou a integrar o planejamento hídrico de países como Israel, Austrália, Espanha e, progressivamente, o Brasil.
“As práticas agrícolas exigem muito dos recursos de água doce. Com a escassez de chuvas e as secas ameaçando o abastecimento global de água, estamos caminhando para um futuro de falta d’água que talvez só seja suprida com o reaproveitamento de águas residuais tratadas”, afirmou Sanchez.
No Brasil, a Resolução CNRH nº 54/2005 e, posteriormente, a Lei nº 9.984/2000 regulamentam o reúso, mas as normas específicas para irrigação agrícola com efluentes tratados ainda carecem de parâmetros voltados à presença de micropoluentes farmacêuticos — lacuna que estudos como este tornam ainda mais evidente.
O que o tratamento convencional não remove
Parte do problema está nos processos de tratamento de efluentes disponíveis atualmente. As estações de tratamento de esgoto convencionais foram projetadas, sobretudo, para remover matéria orgânica, sólidos suspensos e patógenos. Compostos farmacêuticos, por outro lado, pertencem a uma categoria diferente: são micropoluentes que atravessam as etapas tradicionais de tratamento sem serem completamente eliminados e chegam à água de irrigação em concentrações baixas, porém mensuráveis.
O coautor Carsten Prasse pondera que a mera presença desses compostos nas águas residuais não equivale, automaticamente, a risco para o consumidor. “O simples fato de esses medicamentos serem comumente encontrados em águas residuais tratadas não significa que eles terão qualquer impacto significativo na planta ou em seu consumidor”, afirmou. Ainda assim, Prasse sinaliza o que o estudo considera mais urgente: a necessidade de avaliar não apenas os fármacos originais, mas os subprodutos gerados durante o processamento pelas plantas. Esses metabólitos — compostos formados após a absorção e transformação das moléculas originais pelos tecidos vegetais — são, em muitos casos, desconhecidos e raramente incluídos nos protocolos de monitoramento ambiental.
“Esperamos que esta pesquisa ajude a identificar quais compostos devem ser avaliados com mais detalhes para fundamentar possíveis regulamentações futuras”, completou o pesquisador.
Regulamentação precisa acompanhar a prática
O estudo da Johns Hopkins chega em um momento em que a adoção do reúso agrícola cresce mais rápido do que a capacidade regulatória de monitorá-lo. Para hortaliças de ciclo curto — como alface e cenoura, cujo período entre plantio e colheita pode ser inferior a 90 dias —, o tempo de exposição à água residual é suficiente para que o acúmulo de compostos ocorra de forma relevante.
A pesquisa, portanto, não questiona o reúso como prática, mas aponta a necessidade de ampliar o escopo do que é monitorado e regulado. Isso inclui a definição de limites máximos de resíduos farmacêuticos na água utilizada para irrigação de culturas destinadas ao consumo humano direto, bem como a exigência de tecnologias de tratamento terciário — como ozonização e carvão ativado — em sistemas que alimentam a irrigação de hortaliças folhosas e raízes.
Para produtores que já utilizam ou cogitam utilizar água de reúso, o caminho mais seguro passa pela análise laboratorial periódica da fonte hídrica e pela adoção de culturas menos suscetíveis à absorção foliar de micropoluentes, enquanto os protocolos regulatórios avançam. A ciência sinalizou o problema com clareza — cabe à gestão pública e ao setor produtivo transformar esse alerta em norma.
