Paisagismo
Vasos biodegradáveis eliminam plástico com matéria-prima que sairia do lixo
Designer baiano desenvolve recipientes a partir de cascas de ovo, serragem e resíduos de floriculturas, provando que economia circular funciona na prática
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O plástico domina a jardinagem há décadas. Vasos descartáveis inundam viveiros, garden centers e até floriculturas de bairro. O problema? Esse material leva centenas de anos para se degradar e raramente volta ao ciclo produtivo. A Embrapa aponta que a produção global de plástico ultrapassa 400 milhões de toneladas por ano. O destino de boa parte desse volume é conhecido: aterros, oceanos, córregos.
Adonis Evangelista, designer baiano formado em engenharia mecânica, decidiu atacar o problema pela raiz. Literalmente. Durante o mestrado em design industrial na Universidade do Porto, sob supervisão de Lígia Lopes, ele estruturou um projeto que transforma resíduos orgânicos em vasos funcionais. A matéria-prima vem de três fontes: floriculturas (caules, folhas, fibras naturais), restaurantes (cascas de ovo) e carpintarias (serragem). Material que iria direto para o lixo.
O desafio estava na resistência
Qualquer designer sabe que trabalhar com matéria orgânica exige rigor técnico. Fibras naturais podem ser frágeis, porosas, instáveis quando expostas à umidade. Adonis testou dezenas de combinações até encontrar o ponto de equilíbrio. “No meu estudo de caso, separei as fibras e vi que a casca de ovo misturada ao pó de serrinha rendia um material muito mais rígido, enquanto outras fibras não”, explica o designer.

A casca de ovo trouxe a rigidez necessária. A serragem garantiu a estrutura. Mas ainda faltava um elemento: o aglutinante. Colas sintéticas eliminariam o apelo sustentável do projeto. A solução veio do ágar-ágar, gelatina extraída de algas marinhas. Esse componente é completamente biodegradável e, ao retornar ao meio ambiente, não gera impacto negativo. Pura química verde aplicada ao design.
“O maior desafio foi este: como tornar este material resistente o suficiente para aguentar o período de crescimento da planta, ou então para que entrasse em contato com a água e não derretesse de imediato?”, completa Adonis. Ele conseguiu. Os vasos suportam irrigação regular, variações de temperatura e o peso da planta em desenvolvimento.
Formas, cores e texturas saem da composição
A estética não ficou para trás. Os vasos biodegradáveis podem assumir diferentes formas, cores e texturas, dependendo da proporção de cada resíduo utilizado. Cascas de ovo trazem tons claros e acabamento levemente granulado. Serragem de madeiras escuras adiciona profundidade visual. Fibras de floriculturas criam padrões irregulares que fogem da uniformidade industrial do plástico.
Essa versatilidade abre portas para projetos de decoração e paisagismo que buscam identidade visual própria. Cada vaso carrega a marca do resíduo que o originou, tornando-se peça única. O mercado de design de interiores vem valorizando esse tipo de narrativa: produtos com história, rastreabilidade e impacto ambiental positivo.
Economia circular aplicada ao design
Adonis não está preocupado apenas com o produto final. Sua formação em engenharia mecânica o empurra para pensar em escala, logística e viabilidade industrial. O modelo proposto conecta três cadeias produtivas distintas — floricultura, gastronomia e marcenaria — que hoje descartam toneladas de resíduos sem reaproveitamento econômico.

A lógica é simples: carpintarias geram serragem diariamente. Restaurantes acumulam cascas de ovo sem destino útil. Floriculturas descartam caules, folhas e fibras após o processamento das flores. Transformar esse fluxo de descarte em matéria-prima para vasos cria um modelo de economia circular aplicável a diferentes regiões e escalas de produção.
Expansão para outras aplicações
O designer já enxerga além dos vasos. Durante a pesquisa, ele identificou que algumas composições de fibras resultam em papéis translúcidos, capazes de filtrar luz sem bloqueá-la totalmente. Essa descoberta abre caminho para o desenvolvimento de luminárias biodegradáveis, painéis decorativos e até revestimentos temporários para eventos.
A aplicação em luminárias é especialmente estratégica. O mercado de iluminação decorativa valoriza materiais naturais, texturas orgânicas e produtos que conversem com tendências de design biofílico. Um papel translúcido feito de resíduos de floricultura poderia atender nichos específicos de arquitetura comercial, hotéis boutique e projetos residenciais de alto padrão.
O plástico perde terreno quando há alternativa viável
Produtores de mudas, viveiristas e paisagistas ainda dependem do plástico por uma razão prática: custo baixo e disponibilidade imediata. Mas o cenário muda quando surge uma alternativa competitiva. Vasos biodegradáveis eliminam a necessidade de descarte, reduzem passivo ambiental e agregam valor de marca para negócios que querem se posicionar como sustentáveis.
O próximo passo é escalar a produção. Adonis sabe que a viabilidade comercial depende de parcerias com empresas de insumos agrícolas, cooperativas de reciclagem e redes de distribuição. A matéria-prima está disponível. A tecnologia está validada. Agora é momento de tirar o projeto do laboratório e levá-lo para o mercado real.
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