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Quando o café vira energia: a nova biomassa que transforma resíduos em combustível sustentável
Publicado
2 meses atrásem
Por
Claudio P. Filla
Resumo
• A transformação da borra de café em pellets surge como alternativa sustentável para substituir a lenha e reduzir emissões de carbono.
• A Bricoffee, criada por Luiz Zolet, produz atualmente até 13 toneladas diárias e planeja dobrar a capacidade até 2026.
• O processamento industrial evita que milhares de toneladas de borra acabem em aterros, mitigando gases de efeito estufa.
• O pellet de café apresenta custo competitivo e atende à demanda crescente por biomassa limpa usada em caldeiras industriais.
• Indústrias como a Nestlé já utilizam a borra como biomassa, reforçando o potencial energético e ambiental desse resíduo abundante.
A borra de café, que diariamente acompanha brasileiros em cafeterias, indústrias e cozinhas domésticas, sempre ocupou o papel de resíduo comum — um material orgânico descartado rapidamente, sem grande atenção. Entretanto, esse cenário começou a mudar quando o empreendedor Luiz Zolet enxergou no descarte cotidiano uma oportunidade de transformar um passivo ambiental em uma alternativa viável para a geração de energia limpa. O que parecia um resíduo irrelevante passou a ser visto como biomassa de alto potencial energético, capaz de substituir a lenha e reduzir emissões de carbono em escala industrial.
Zolet trabalhava no setor de gordura animal e farinha de vísceras, atendendo indústrias de biodiesel e nutrição animal no Paraná. Em 2019, ao observar a rotina de descarte da borra de café, imaginou que aquele material rico em compostos poderia receber um novo destino. “A ideia inicial era extrair o óleo da borra de café, mas o processo de separação é economicicamente inviável”, afirma. Mesmo assim, ele persistiu nas pesquisas e encontrou outro caminho: compactar o resíduo em pellets capazes de substituir cavacos de madeira em caldeiras industriais. Assim surgia a base do que viria a se tornar sua “lenha ecológica”.
A fase inicial do projeto foi artesanal. “Comecei fazendo com uma prensa manual em casa. Começou a dar certo, aí desenvolvi o projeto do negócio e passei na seleção do Biopark de Toledo (PR) para desenvolver lá o projeto por seis meses”, lembra Zolet. O potencial energético do material e sua disponibilidade em larga escala motivaram o empreendedor a estruturar um plano industrial. Com apoio de R$ 300 mil do Sebraetec, ele conseguiu desenvolver um modelo profissional de pelletização da borra de café, que resultou na criação da Bricoffee em 2022.
A primeira unidade produtiva, instalada em Tupãssi (PR), alcançava cerca de 200 quilos por hora. Porém, a necessidade de proximidade com grandes geradores de resíduo direcionou a empresa ao polo cafeeiro de Varginha (MG), onde indústrias de torrefação produzem diariamente toneladas de borra. A mudança transformou o negócio. Hoje, Zolet processa de 12 a 13 toneladas de resíduos por dia, volume que alimenta uma demanda crescente por biomassa renovável. “Tudo que eu produzo hoje vendo para um cliente da agroindústria, mas a demanda está muito alta. Estou investindo entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão na instalação de uma nova linha de produção para ampliar a oferta”, explica.

A projeção é ainda mais ambiciosa: a meta é chegar a 25 toneladas diárias até 2026, impulsionada pela negociação com grandes torrefadoras de café solúvel, que geram volumes ainda mais expressivos de resíduos. Zolet destaca que o impacto ambiental desse processo é duplo. Além de substituir fontes que demandam desmatamento, os pellets evitam que a borra seja descartada em aterros sanitários. “A decomposição da borra de café leva de 50 a 60 dias. Com os pellets, tiramos do ambiente um passivo ambiental enorme, gerando uma fonte de energia limpa e renovável”, afirma.
A estimativa de Zolet revela a dimensão do problema: cerca de 8 mil toneladas de borra de café são descartadas por dia no Brasil. Quando desviadas dos aterros, essas toneladas deixam de liberar gases de efeito estufa durante sua decomposição. De acordo com cálculos do empreendedor, cada tonelada retirada do descarte evita aproximadamente 200 quilos de carbono equivalente, valor comparado a 200 créditos de carbono. Por essa razão, a Bricoffee busca certificações internacionais para comercializar créditos no mercado global.
Do ponto de vista econômico, o produto também é competitivo. O pellet de borra de café chega aos clientes por valores entre R$ 0,95 e R$ 1 o quilo, enquanto pellets de pinus podem custar até R$ 1,40 na mesma região. A combinação entre preço, eficiência energética, sustentabilidade e abundância do resíduo ajuda a explicar o crescimento acelerado da empresa.
A iniciativa brasileira dialoga com práticas já adotadas há décadas em algumas indústrias. A Nestlé, por exemplo, utiliza a borra de café como biomassa desde a década de 1980 em sua fábrica de Araras (SP). A companhia relata que o resíduo é prensado, armazenado e posteriormente misturado a cavacos de madeira para alimentar caldeiras. “Atualmente, cerca de 97% da borra de café gerada nos processos produtivos da fábrica é reaproveitada como biomassa, contribuindo para reduzir o consumo de fontes fósseis e as emissões de gases de efeito estufa. O restante, aproximadamente 3%, segue para compostagem e é utilizado como fertilizante orgânico em lavouras da região”, informou a empresa em nota.
Ao transformar um resíduo abundante em energia renovável, iniciativas como a Bricoffee apontam para uma transição cada vez mais necessária: aquela que conecta inovação, redução de impactos ambientais e eficiência produtiva. O café, que já movimenta a economia brasileira em tantas frentes, encontra agora mais uma forma de circular — como combustível sustentável em busca de um futuro menos dependente de combustíveis fósseis.

Comunicador Social com especialização em Mídias Digitais e quase uma década de experiência na curadoria de conteúdos para setores estratégicos. No Agronamidia, Cláudio atua como Redator-chefe, liderando uma equipe multidisciplinar de especialistas em agronomia, veterinária e desenvolvimento rural para garantir o rigor técnico das informações do campo. É também o idealizador do portal Enfeite Decora, onde aplica sua expertise em paisagismo e arquitetura para conectar o universo da produção natural ao design de interiores. Sua atuação multiplataforma reflete o compromisso em traduzir temas complexos em conteúdos acessíveis, precisos e com alto valor informativo para o público brasileiro.
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