Natureza
Germoplasma global: onde o futuro da comida do planeta está guardado
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1 dia atrásem
Por
Claudio P. Filla
Poucos lugares no planeta concentram tanta vida quanto a Costa Rica. Montanhas, florestas úmidas, manguezais e litorais banhados por dois oceanos formam um mosaico ecológico que abriga entre 5% e 6% da biodiversidade global, segundo a FAO. Entretanto, mais do que um paraíso natural, o país se tornou um símbolo de algo ainda mais estratégico: a preservação do patrimônio genético que sustenta a agricultura mundial.
É em Turrialba, entre vales férteis e áreas preservadas, que o Centro de Pesquisa Agrícola Tropical e Ensino Superior (Catie) mantém uma das mais relevantes coleções de germoplasma de café e cacau do mundo. Em uma estrutura que ocupa mil hectares, o centro conserva mais de 3 mil variedades dessas culturas. Contudo, o trabalho vai além do armazenamento. Ali, ciência, melhoramento genético e cooperação internacional caminham juntos desde a década de 1940, quando a instituição começou sua trajetória.
Segundo Rolando Cerda, coordenador da Unidade de Agrossilvicultura e Melhoramento Genético de Café e Cacau do Catie, as coleções são de domínio público e podem ser compartilhadas conforme interesses específicos. Essa lógica colaborativa permite que produtores e centros de pesquisa desenvolvam plantas mais resistentes e produtivas, especialmente diante de doenças que ameaçam cadeias inteiras. No caso do cacau, por exemplo, a parceria com a Ceplac busca variedades capazes de enfrentar a monilíase e a vassoura-de-bruxa, como explica a pesquisadora Mariela Leandro.
Aliás, o impacto econômico desse trabalho é expressivo. O centro já lançou seis variedades de cacau nos últimos 15 anos e prevê novos materiais nos próximos ciclos. Algumas dessas linhagens apresentam potencial produtivo de até 2 mil quilos por hectare, além de se adaptarem a sistemas agroflorestais que capturam carbono e contribuem para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Dessa forma, preservação genética e agricultura regenerativa deixam de ser conceitos abstratos e passam a representar ganhos concretos ao produtor.
No caso do café, a importância dos bancos genéticos torna-se ainda mais evidente. A trajetória do geisha, variedade que hoje alcança valores recordes em leilões internacionais, passou por diferentes países antes de encontrar na América Central o ambiente ideal para expressar sua qualidade. William Solano, pesquisador em recursos genéticos do Catie, lembra que a coleção iniciada em 1949 reúne cerca de 2 mil materiais, incluindo 800 linhagens silvestres coletadas em seu habitat natural. O cruzamento dessas plantas com variedades comerciais gera híbridos de alta produtividade e excelência sensorial, algo essencial para enfrentar pragas e eventos climáticos extremos que pressionam a cafeicultura mundial.
Entretanto, a proteção da biodiversidade agrícola não se limita aos trópicos. A cerca de 1.300 quilômetros do Polo Norte, sob camadas de gelo e rocha no arquipélago de Svalbard, na Noruega, está o maior símbolo da segurança alimentar global. Inaugurado em 2008, o Banco Global de Sementes mantém quase 1,4 milhão de amostras de mais de 6.500 espécies em condições controladas de -18°C. O permafrost funciona como um freezer natural, garantindo viabilidade por séculos.
Diferentemente de centros ativos de pesquisa, Svalbard opera como um sistema de backup. Cada amostra armazenada ali é duplicata de coleções mantidas em seus países de origem. Essa estratégia mostrou sua importância em 2015, quando parte do acervo do banco genético de Aleppo, na Síria, precisou ser resgatada após danos provocados pela guerra. Assim, o que parecia uma estrutura distante e quase simbólica revelou-se um seguro real contra perdas irreversíveis.
O Brasil, por sua vez, desempenha papel central nessa rede global. O Banco Genético da Embrapa, em Brasília, tem capacidade para conservar mais de um milhão de amostras de DNA vegetal, animal e microbiano. Juliano Pádua, coordenador do BGE, explica que a lógica é semelhante à de Svalbard: atuar como cópia de segurança para dezenas de instituições nacionais e internacionais. As sementes passam por rigorosos testes de germinação, com padrão mínimo de 85%, têm a umidade reduzida para 5% e são congeladas. A cada 20 anos, novas análises garantem a viabilidade do material.
Além das sementes convencionais, o banco brasileiro preserva vegetais in vitro e materiais mantidos em nitrogênio líquido a -196°C por meio da criopreservação. Marcos Gimenes, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, ressalta que a conservação desses acervos não é apenas uma questão técnica, mas estratégica. A diversidade genética foi base da revolução agrícola brasileira desde os anos 1970 e continuará sendo determinante diante dos riscos climáticos crescentes.
Sob essa ótica, os cerca de 1.700 bancos de germoplasma existentes no mundo formam uma rede silenciosa que sustenta o presente e projeta o futuro. Eles garantem que genes resistentes a pragas, tolerantes à seca ou adaptados a solos específicos estejam disponíveis quando necessários. Além disso, preservam o patrimônio de comunidades tradicionais e agricultores familiares, como ocorreu recentemente com o envio de variedades crioulas brasileiras para a Noruega.
Portanto, embora invisíveis para a maioria das pessoas, esses cofres genéticos são verdadeiros guardiões da vida. Eles protegem não apenas sementes, mas sistemas alimentares inteiros. E, em um cenário de mudanças climáticas, conflitos e instabilidade ambiental, tornam-se uma das infraestruturas mais estratégicas para a humanidade.
Fonte: Umsoplaneta

Comunicador Social com especialização em Mídias Digitais e quase uma década de experiência na curadoria de conteúdos para setores estratégicos. No Agronamidia, Cláudio atua como Redator-chefe, liderando uma equipe multidisciplinar de especialistas em agronomia, veterinária e desenvolvimento rural para garantir o rigor técnico das informações do campo. É também o idealizador do portal Enfeite Decora, onde aplica sua expertise em paisagismo e arquitetura para conectar o universo da produção natural ao design de interiores. Sua atuação multiplataforma reflete o compromisso em traduzir temas complexos em conteúdos acessíveis, precisos e com alto valor informativo para o público brasileiro.
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