Pecuaria
Pecuária brasileira consome mais água que cinco estados juntos — e o país pode estar “exportando” recursos hídricos
Publicado
21 horas atrásem
Por
Claudio P. Filla
A produção de carne bovina e soja, dois pilares da balança comercial brasileira, está diretamente conectada a um recurso cada vez mais estratégico: a água. Embora o Brasil seja reconhecido por sua abundância hídrica, uma análise recente da iniciativa internacional Trase aponta que parte significativa desse volume está sendo incorporada às cadeias globais de commodities — muitas vezes sem que consumidores ou investidores percebam.
De acordo com o levantamento, a pecuária brasileira utiliza entre 10,1 e 10,4 bilhões de metros cúbicos de água por ano. O número impressiona não apenas pelo tamanho absoluto, mas sobretudo pela comparação: trata-se de um volume superior ao consumo somado das populações de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e Distrito Federal, estimado em 7,8 bilhões de metros cúbicos anuais.
Entretanto, quando se observa a soja, o cenário ganha outra escala. A produção do grão demanda entre 188 e 206 bilhões de metros cúbicos por ano, majoritariamente provenientes das chuvas. Ainda assim, o estudo identifica crescimento da irrigação em áreas mais secas, o que eleva a pressão sobre bacias já vulneráveis.
Os dados foram construídos a partir de informações do MapBiomas e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), considerando o período de 2015 a 2017, e detalhados pela plataforma Trase em parceria com reportagens da Folhapress.
Uso indireto e a água que viaja junto com a commodity
Segundo os pesquisadores, a maior parte desse consumo não aparece nos relatórios corporativos tradicionais. Empresas costumam contabilizar apenas o uso direto em frigoríficos ou armazéns, mas deixam de considerar o chamado uso indireto — aquele que ocorre nas fazendas e nas bacias hidrográficas onde a matéria-prima é produzida.
“Queremos mostrar justamente o uso indireto de água, aquele consumido através de produtos”, afirma o pesquisador sênior do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo, Michael Lathuillière, um dos autores do estudo.
Sob essa ótica, a exportação de carne e soja também representa a exportação de recursos hídricos. “O Brasil, de certa forma, está exportando recursos hídricos”, complementa Lathuillière.
A lógica é simples, porém pouco discutida: cada tonelada embarcada carrega embutida uma pegada hídrica significativa, o que conecta consumidores internacionais às condições ambientais de bacias brasileiras muitas vezes distantes dos grandes centros urbanos.
Pressão sobre bacias estratégicas
A análise também evidencia que grandes comerciantes globais de carne bovina, como JBS, Minerva, Marfrig e Mataboi, dependem de regiões hidrográficas como Paraná, Tocantins-Araguaia e Amazônica. São áreas que, segundo dados da ANA, já enfrentam níveis elevados ou críticos de escassez.
No caso da soja, traders como Bunge, ADM, Cargill, Louis Dreyfus e Cofco concentram parte relevante da produção irrigada na bacia do rio São Francisco, uma das mais pressionadas do país.
Além disso, embora o gado consuma água principalmente por meio de pequenos reservatórios nas propriedades, cerca de dois terços desse volume se perde por evaporação. Isso reduz a disponibilidade para abastecimento humano, manutenção de ecossistemas e geração de energia, ampliando a competição pelo recurso.
“Há uma questão em relação às outorgas de captação de água no Brasil, em que muitos reservatórios são construídos sem autorização”, alerta Lathuillière. “Existe um problema político e de gestão nas fazendas”.
Escassez e desmatamento: uma sobreposição preocupante
Outro ponto sensível identificado pelo estudo é a sobreposição entre escassez hídrica e avanço do desmatamento. No oeste da Bahia, região do Matopiba, levantamentos apontam mais de sete mil quilômetros de rios e riachos que deixaram de correr de forma perene, impactados pela expansão agrícola e pela retirada intensiva de água.
Na Amazônia, pesquisas citadas pela Trase indicam que o desequilíbrio climático associado ao desmatamento gerou prejuízos superiores a US$ 1 bilhão à produção de soja e milho entre 2006 e 2019. Já no Cerrado, a vazão dos rios caiu 27% desde os anos 1970, enquanto as chuvas diminuíram 21%.
Essa combinação cria um ciclo delicado: menos vegetação reduz a capacidade de retenção de água no solo, o que, por sua vez, diminui a regularidade das chuvas e aumenta a dependência de irrigação. Consequentemente, a produção agrícola torna-se mais vulnerável a eventos extremos e oscilações climáticas.
Riscos econômicos e necessidade de coordenação
Para os autores do relatório, a crescente exposição das cadeias de carne e soja à escassez hídrica não é apenas uma questão ambiental, mas também econômica. A volatilidade climática pode comprometer produtividade, elevar custos e impactar a competitividade internacional.
Nesse contexto, empresas, governos e instituições financeiras passam a ter papel central. O estudo sugere a adoção de metas claras de uso da água ao longo das cadeias de suprimentos, maior transparência ambiental e alinhamento do crédito rural a práticas que preservem recursos hídricos.
“Exportadores, governos e financiadores têm um papel a desempenhar”, afirma o relatório da Trase. “A ação coordenada pode reduzir riscos e contribuir para sistemas alimentares mais resilientes”.
Assim, o debate sobre água no agronegócio deixa de ser apenas técnico e passa a integrar discussões estratégicas sobre segurança alimentar, reputação internacional e sustentabilidade de longo prazo. Afinal, em um cenário de mudanças climáticas e competição global por recursos naturais, a água pode se tornar tão estratégica quanto a própria commodity que ela ajuda a produzir.

Comunicador Social com especialização em Mídias Digitais e quase uma década de experiência na curadoria de conteúdos para setores estratégicos. No Agronamidia, Cláudio atua como Redator-chefe, liderando uma equipe multidisciplinar de especialistas em agronomia, veterinária e desenvolvimento rural para garantir o rigor técnico das informações do campo. É também o idealizador do portal Enfeite Decora, onde aplica sua expertise em paisagismo e arquitetura para conectar o universo da produção natural ao design de interiores. Sua atuação multiplataforma reflete o compromisso em traduzir temas complexos em conteúdos acessíveis, precisos e com alto valor informativo para o público brasileiro.
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