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Solo brasileiro perde carbono com expansão agropecuária, mas sistemas integrados reduzem impacto
Levantamento com mais de 4 mil amostras quantifica perdas e mostra como ILP e plantio direto podem acelerar a recarbonização
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Por
Claudio P. Filla
A conversão de vegetação nativa em áreas agropecuárias nos seis biomas brasileiros deixou uma marca profunda sob a superfície. Um levantamento inédito calculou que a mudança de uso da terra resultou em um déficit de 1,4 bilhão de toneladas de carbono na camada de até 30 centímetros do solo, o que equivale a 5,2 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente. Entretanto, ao mesmo tempo em que dimensiona a magnitude da perda, o estudo também revela onde e como o Brasil pode recuperar parte desse estoque estratégico.
Publicado na revista Nature Communications, o trabalho reúne dados de 4.290 amostras de solo analisadas em diferentes profundidades e consolida informações de mais de 370 estudos conduzidos no País. Pela primeira vez, foi estabelecida uma linha de base capaz de estimar quanto carbono estava armazenado antes das intervenções antrópicas e qual foi a “dívida” acumulada com a conversão para lavouras e pastagens.
Segundo Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, a relevância do estudo está justamente em ir além do diagnóstico. “Ao mesmo tempo em que quantifica o problema, a pesquisa aponta oportunidades de incremento de carbono com a mudança de práticas agropecuárias, iniciativas de políticas públicas ou ações privadas”, explica. Dessa forma, o levantamento deixa de ser apenas um retrato histórico e passa a funcionar como instrumento estratégico para planejamento produtivo e climático.
O primeiro autor do artigo, João Marcos Villela, destaca que, embora os dados tenham sido coletados a partir de diferentes metodologias, a amplitude do banco construído representa um avanço inédito. “Antes não tínhamos informações com essa abrangência. Esse trabalho serve como ponto de referência para ações futuras”, afirma. Aliás, a iniciativa já estimulou novos projetos para ampliar a coleta padronizada de dados em todo o território nacional, o que permitirá refinar ainda mais as estimativas.
Clima, solo e intensidade de manejo moldam o balanço de carbono
A análise revelou que o clima exerce influência direta sobre os estoques de carbono orgânico no solo. Biomas de clima mais frio e úmido, como Pampa e Mata Atlântica, apresentaram maiores reservas iniciais. Por outro lado, regiões tropicais como Cerrado, Pantanal, Caatinga e Amazônia, embora também relevantes, mostraram dinâmica distinta de armazenamento e perda.
Consequentemente, áreas que possuíam maior estoque original sofreram perdas mais expressivas após a conversão para uso agropecuário. Essa constatação reforça que políticas de recuperação precisam considerar especificidades regionais, já que a capacidade de recarbonização não é homogênea entre biomas.
Sistemas integrados reduzem a “dívida” de carbono
Embora a conversão de vegetação nativa tenha provocado perdas médias significativas, o estudo demonstra que o tipo de manejo adotado altera substancialmente esse cenário. A transformação em monoculturas resultou em redução média de 22% na matéria orgânica do solo. Contudo, em sistemas agrícolas integrados, como a Integração Lavoura-Pecuária (ILP), a perda foi bem menor, de 8,6%.
O plantio direto também apresentou desempenho superior em comparação ao cultivo convencional. Enquanto o sistema tradicional registrou queda de 21,4% no carbono do solo, o plantio direto reduziu essa perda para 11,4%, diferença que evidencia o papel do manejo conservacionista na mitigação de emissões.
Assim, intensificação produtiva não significa necessariamente maior impacto ambiental. Quando associada à diversificação e ao manejo adequado, ela pode reduzir a distância entre os estoques atuais e aqueles observados sob vegetação nativa.
Cerrado e Mata Atlântica concentram maior potencial de recarbonização
A pesquisa indica que aproximadamente 72% do potencial de incremento de carbono está concentrado nos biomas Cerrado e Mata Atlântica. O Cerrado poderia contribuir com cerca de 0,53 bilhão de toneladas de carbono, enquanto a Mata Atlântica teria potencial de 0,48 bilhão.
Sob essa ótica, direcionar políticas públicas e incentivos privados para essas regiões pode acelerar o cumprimento das metas brasileiras estabelecidas nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) do Acordo de Paris. Os pesquisadores estimam que a recarbonização de apenas um terço do potencial identificado já seria suficiente para alcançar a meta de redução de emissões entre 59% e 67% até 2035.
“Entender essa diversidade de climas, biomas e sistemas produtivos, tanto no âmbito de perdas quanto de ganhos, serve para direcionar soluções mais adaptadas”, ressalta Villela. Ou seja, a eficiência na captura de carbono passa, necessariamente, por estratégias regionalizadas.
Mercado de carbono e reconhecimento internacional
Além de subsidiar políticas públicas, a quantificação do déficit abre espaço para dimensionar economicamente o mercado de carbono no Brasil. Daniel Potma observa que conhecer o tamanho dessa “dívida” permite estimar o volume potencial de recursos financeiros associados à sua recuperação. “Conhecendo o tamanho do ‘pote’, é possível saber quanto isso vale em termos de recursos, o que poderá atrair investimentos na economia da descarbonização”, afirma.
A publicação em um periódico de alto impacto também fortalece a posição do Brasil nas negociações climáticas internacionais. Conforme destaca Barioni, compromissos globais são firmados com base em evidências científicas reconhecidas. Assim, dados robustos produzidos no âmbito nacional ampliam a credibilidade das políticas ambientais brasileiras.
Em um cenário de crescente pressão por sustentabilidade e rastreabilidade, a pesquisa demonstra que o solo brasileiro não é apenas suporte produtivo, mas ativo estratégico. Entretanto, a recuperação desse patrimônio depende da adoção consistente de práticas como integração lavoura-pecuária, plantio direto e manejo regionalmente adaptado. É nessa convergência entre ciência, política pública e gestão técnica que o País poderá transformar déficit em oportunidade.
Fonte: Gabriel Rezende Faria (MTB 15.624 MG)
Embrapa Agricultura Digital

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