Agro
MapBiomas apresenta o primeiro mapa detalhado da agricultura de segunda safra no Brasil
Publicado
2 meses atrásem
Por
Claudio P. Filla
Resumo
• O MapBiomas lançou seu primeiro mapa nacional da agricultura de segunda safra, detalhando culturas plantadas após o verão e ampliando o monitoramento do uso da terra no Brasil.
• O milho domina a segunda safra, com 14,7 milhões de hectares cultivados em 2024, seguido pelo algodão e outras espécies temporárias usadas também para cobertura do solo.
• Estado líderes como Mato Grosso, Paraná e Mato Grosso do Sul concentram a maior parte da sucessão soja–milho, reforçando a importância produtiva do sistema de dois ciclos.
• A soja continua sendo o eixo da agricultura brasileira, expandindo-se de 4,5 para 40,7 milhões de hectares desde 1985 e impulsionando a dinâmica de múltiplos ciclos agrícolas.
• O mapeamento também revela a expansão de culturas como cana-de-açúcar, citros, dendê e silvicultura, evidenciando o aumento da diversidade produtiva no país.
Com o lançamento da primeira versão do mapa da agricultura de segunda safra, o MapBiomas amplia sua atuação no mapeamento do uso da terra no Brasil e inaugura uma nova etapa de observação detalhada das culturas temporárias cultivadas após o verão. A plataforma, que já se consolidou como referência no monitoramento ambiental, agora oferece uma ferramenta dedicada à identificação da chamada “safrinha” — elemento estratégico da agricultura tropical.
A nova base de dados foi desenvolvida a partir do cruzamento com o mapa de quantidade de ciclos agrícolas, lançado anteriormente, e identifica o que é plantado após a colheita das lavouras principais. A ênfase do projeto é promover o conhecimento técnico necessário para conciliar produtividade e sustentabilidade, especialmente em tempos de transição climática e pressão sobre os recursos naturais.
Os dados da nova versão revelam um domínio claro do milho como cultura predominante no cenário da segunda safra. Em 2024, o MapBiomas identificou 14,7 milhões de hectares cultivados com milho, 2,5 milhões com algodão e 6,5 milhões com outras espécies temporárias ou plantas de cobertura. O padrão mais recorrente é o cultivo do milho logo após a colheita da soja — uma estratégia que aproveita os resíduos orgânicos do primeiro ciclo e reduz a pressão por abertura de novas áreas.
O monitoramento detalha que cerca de 95% das áreas de milho da segunda safra foram implantadas sobre talhões anteriormente ocupados por soja, configurando uma prática consolidada de rotação e intensificação da terra sem necessariamente expandir fronteiras agrícolas.
Mato Grosso continua como o maior expoente dessa dinâmica. Apenas nesse estado, 6,7 milhões de hectares de milho foram plantados após soja, o que representa 94% da produção estadual do cereal. Em seguida aparecem o Paraná, com 2,2 milhões de hectares, e o Mato Grosso do Sul, com 1,8 milhão de hectares cultivados na mesma lógica de sucessão.
Na visão geral de 2024, o MapBiomas aponta 7,1 milhões de hectares de milho e 1,6 milhão de algodão em segunda safra no Mato Grosso, enquanto o Paraná cultivou 5 milhões de hectares, entre milho e plantas de cobertura. Mato Grosso do Sul e Goiás também aparecem com destaque, com volumes expressivos de milho e algodão no segundo ciclo.
Apesar do avanço da segunda safra, a soja permanece como protagonista do setor agrícola nacional. O cultivo da oleaginosa cresceu de forma acentuada nas últimas décadas, saindo de 4,5 milhões de hectares em 1985 para 40,7 milhões em 2024. Segundo os dados, quase dois terços da área cultivada com soja em 2024 apresentaram dois ciclos agrícolas, enquanto outros 6,1% registraram três ciclos consecutivos.
Essa alta produtividade, porém, carrega implicações importantes para a gestão do solo e da água, exigindo práticas de manejo eficientes e acompanhamento técnico contínuo. A conversão intensiva da soja em milho ou algodão é, ao mesmo tempo, uma vantagem agronômica e um alerta para os limites do sistema, principalmente diante da redução da janela hídrica no Centro-Oeste e Sul do país.
Além das safras tradicionais, o novo mapeamento também registrou a expansão de outras culturas permanentes. A cana-de-açúcar saltou de 2,2 milhões de hectares em 1985 para 10,1 milhões em 2024, enquanto o arroz passou de 390 mil para 1,1 milhão de hectares no mesmo período. O setor de citros quadruplicou sua área, e o cultivo de dendê aumentou 24 vezes, chegando a 240 mil hectares — com destaque para o estado do Pará.
Outro segmento que se destacou foi o de silvicultura, que expandiu sua presença no território nacional, atingindo 9 milhões de hectares em 2024, ante 1,56 milhão em 1985. Essa diversificação reflete o crescimento de cadeias produtivas de base florestal, tanto para fins industriais quanto energéticos.
A primeira versão do mapa da agricultura de segunda safra do MapBiomas traz uma contribuição estratégica para a compreensão das transformações no campo brasileiro. Ao identificar o avanço do cultivo entre ciclos, a plataforma aponta caminhos para intensificar a produção sem sacrificar a conservação ambiental — um equilíbrio fundamental para o futuro do setor agropecuário no país.
A ferramenta está disponível gratuitamente para consulta e uso técnico, oferecendo suporte a produtores, pesquisadores e formuladores de políticas públicas em busca de soluções sustentáveis no uso do solo. O monitoramento contínuo promete se tornar um aliado importante na construção de uma agricultura mais inteligente, resiliente e integrada às realidades ecológicas do território brasileiro.

Comunicador Social com especialização em Mídias Digitais e quase uma década de experiência na curadoria de conteúdos para setores estratégicos. No Agronamidia, Cláudio atua como Redator-chefe, liderando uma equipe multidisciplinar de especialistas em agronomia, veterinária e desenvolvimento rural para garantir o rigor técnico das informações do campo. É também o idealizador do portal Enfeite Decora, onde aplica sua expertise em paisagismo e arquitetura para conectar o universo da produção natural ao design de interiores. Sua atuação multiplataforma reflete o compromisso em traduzir temas complexos em conteúdos acessíveis, precisos e com alto valor informativo para o público brasileiro.
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