Agro
Alface pode sumir da mesa do brasileiro até 2100 – e o verão é o vilão
Estudo projeta que quase todo o país terá risco climático alto para o cultivo no verão até o fim do século. Produtores já sentem o golpe na lavoura.
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As folhas da alface não mentem. Finas, sensíveis ao toque e ainda mais frágeis ao calor, elas já estão sinalizando o que vem por aí. A hortaliça mais presente na mesa do brasileiro enfrenta um problema que não se resolve com adubo ou manejo tradicional: o termômetro subiu, e ela não aguenta.
Damião dos Reis Freitas planta alface desde o início dos anos 1990 em Guapiaçu, interior de São Paulo. Três décadas de experiência bastaram para ele perceber que algo mudou. “O verão ficou mais longo e mais violento. Antes, a gente tinha uma janela tranquila entre outubro e março. Hoje, o calor aperta já em setembro e só dá trégua lá por abril”, relata o produtor. A consequência disso é direta: menos folhas aproveitáveis, mais descarte, receita menor.
A Embrapa botou no papel o que o produtor já sabe
Um estudo da Embrapa mapeou o cenário futuro para a cultura da alface no Brasil. Os números assustam. Entre 2071 e 2100, mesmo em uma projeção otimista de contenção de emissões, 97% do território nacional estará sob risco climático alto ou muito alto para o plantio a céu aberto no verão. Não é uma possibilidade distante. É uma trajetória em curso.
Segundo o engenheiro ambiental Carlos Eduardo Pacheco, da Embrapa, a alface é extremamente sensível ao estresse térmico. “Temperaturas elevadas comprometem tanto a qualidade quanto a produtividade. A planta até cresce, mas cresce mal”, explica. O problema não está apenas na quantidade de folhas, mas na perda de padrão comercial. Folha manchada, queimada, murcha — tudo isso vira descarte.
Queima de borda: o sintoma visível do colapso invisível
No campo, o principal sinal desse estresse climático tem nome técnico: queima de borda. Com calor excessivo e umidade descontrolada, a alface cresce rápido demais. O transporte de cálcio dentro da planta não acompanha o ritmo de expansão celular. Resultado? Manchas escuras nas pontas das folhas, perda de turgidez e produto fora do padrão de venda.
Damião não ficou parado esperando a situação piorar. Ele passou a cobrir os canteiros com lona específica durante o verão. A medida ajuda a manter a umidade do solo e reduz a incidência direta do sol sobre as mudas. Além disso, aumentou a frequência das irrigações ao longo do dia para tentar compensar a evaporação acelerada. Funciona? Funciona. Mas tem custo.
Hidroponia e sombreamento: a saída está na estrutura
Luiz Herculano Zampollo, também da região de Guapiaçu, viu a produção despencar 45% nos meses de pico de calor. A solução que encontrou foi investir em sistema hidropônico sob estufa com sombreamento. Hoje, ele cultiva alface em bandejas suspensas, controla a temperatura com ventilação forçada e usa telas de sombreamento para filtrar a radiação solar.
Mesmo assim, Zampollo admite que o calor intenso ainda representa um desafio. “A estufa ajuda, mas quando a temperatura externa ultrapassa os 35°C, o ambiente interno vira um forno. Estou estudando instalar sistema de resfriamento evaporativo para ganhar mais estabilidade”, afirma o produtor. A conta sobe, mas a alternativa é parar de produzir no verão.
O que vem pela frente
A alface não vai desaparecer do mercado de uma hora para outra. Porém, o cultivo a céu aberto — modelo predominante em boa parte do país — tende a se concentrar em regiões serranas, onde as temperaturas ainda permitem o plantio sem grandes intervenções tecnológicas. Para o restante do território, a saída será investir em ambiente protegido, climatização ou migrar para cultivares mais tolerantes ao calor, ainda em fase de desenvolvimento pela pesquisa.
O produtor que não se adaptar vai sentir no bolso. A janela de plantio está se fechando, e o mercado não espera. Quem depende exclusivamente do cultivo tradicional já está vendo a margem de lucro encolher safra após safra. A adaptação deixou de ser opcional.
Fonte: G1
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