A Vinícola Góes, localizada em São Roque, no interior paulista, projeta colher entre 99 e 105 toneladas de uva BRS Lorena nesta safra — um volume 40% acima do ciclo anterior.
A variedade é 100% nacional, desenvolvida pela Embrapa, e os números desta safra dizem muito sobre o que o melhoramento genético brasileiro é capaz de entregar quando bem conduzido dentro da porteira.
BRS Lorena não nasceu por acidente
A uva foi desenvolvida a partir do cruzamento entre Malvasia Bianca e Seyval, com um objetivo técnico claro: criar uma variedade adaptada ao clima subtropical brasileiro, onde a umidade elevada e as altas temperaturas historicamente inviabilizaram o cultivo das castas europeias tradicionais. O resultado foi uma planta com sanidade superior, estabilidade produtiva ciclo a ciclo e resistência natural a doenças que, nas variedades importadas, exigem intervenção fitossanitária constante e cara.
Na Góes, os seis hectares plantados estão divididos em dois sistemas de condução. Os três hectares em espaldeira devem atingir entre 8 e 10 toneladas por hectare. Os outros três, conduzidos em latada, podem chegar a 25 toneladas por hectare. A diferença entre os sistemas reflete escolhas de manejo e objetivos produtivos distintos — não uma inconsistência. A latada favorece maior volume; a espaldeira, controle mais fino do microclima da planta.
“A BRS Lorena entrega produtividade consistente e excelente adaptação ao nosso clima. A projeção de uma safra 40% maior confirma que as variedades brasileiras podem ser competitivas e tecnicamente superiores quando bem conduzidas”, afirma Rodrigo Fórmulo, engenheiro agrônomo da vinícola.
O crescimento não veio só do clima
Condições climáticas favoráveis ajudaram. Mas atribuir uma alta de 40% só ao tempo é subestimar o trabalho técnico que sustenta esse resultado. O controle fitossanitário rigoroso, o equilíbrio vegetativo da planta e o monitoramento preciso do ponto de maturação foram determinantes para que a janela de colheita fosse aproveitada no momento certo. Esse conjunto de práticas é o que separa uma safra excepcional de uma safra comum — independentemente do que o céu fez.
Aliás, esse ponto é relevante para qualquer produtor que acompanha o segmento vitivinícola: a tecnologia embarcada na BRS Lorena reduz o custo de proteção da lavoura, mas não elimina a necessidade de gestão técnica apurada. A uva certa no lugar certo ainda depende de quem a conduz.
Branco crescendo, e o mercado percebeu
Os vinhos brancos já representam cerca de 26% do volume comercializado no país, e essa fatia cresce. A mudança no perfil do consumidor brasileiro — que migra para vinhos mais leves, frescos e aromáticos — somada ao aquecimento climático que favorece esse estilo em várias regiões produtoras, abre espaço para variedades como a BRS Lorena ocuparem prateleiras que antes eram dominadas por importados.
A uva tem perfil aromático intenso, caráter moscatel marcante e responde bem às demandas do consumidor que busca um vinho branco com identidade brasileira. Contudo, o mercado ainda precisa ser educado sobre o que é o terroir nacional — e isso passa também pela comunicação das vinícolas que apostam nessas variedades.
Para o produtor que analisa diversificação do mix de produção, a BRS Lorena entra como uma opção com dados concretos de campo: produtividade comprovada, menor pressão de doenças e demanda crescente no canal varejista. A safra da Góes é, por ora, a prova mais recente de que a aposta vale o risco.