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Cumaru da Amazônia no doce de leite: a aposta que transformou uma cozinha caseira em 400 litros por mês

by Derick Machado
21 de fevereiro de 2026
in Noticias
Cumaru da Amazônia no doce de leite: a aposta que transformou uma cozinha caseira em 400 litros por mês

A pandemia fechou restaurantes. Letícia Nogueira abriu o próprio negócio. O que parece simples na retrospectiva foi, na prática, o resultado de uma decisão tomada sob pressão — e executada com uma clareza que poucos empreendedores têm no começo.

Formada em Gastronomia pela PUCPR, ela construiu a Nita Cozinha de Família a partir da cozinha de casa. Hoje, a operação consome em média 400 litros de leite por mês, e o carro-chefe é um doce de leite com cumaru — especiaria extraída de uma semente amazônica de aroma intenso e sabor levemente amadeirado — que virou identidade da marca.

A raiz do negócio está no campo

Letícia cresceu em uma chácara na região de Curitiba, onde a família se instalou quando ela tinha dois anos. Naquele ambiente, a cozinha não era hobbie. Era necessidade. Tudo era produzido ali, transformado ali. Foi nesse contexto que ela desenvolveu a relação com o alimento que mais tarde definiria sua carreira.

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A avó Nita, que dá nome à marca, não deixou receitas escritas. Deixou algo mais difícil de replicar: a habilidade de acolher pessoas pela comida. “Essa aura de comida afetiva, amorosa e acolhedora vem muito dela”, conta a empreendedora. Essa referência moldou o posicionamento da marca desde o início — produtos artesanais, sem conservantes, sem aditivos, com história.

O momento que forçou a virada

Em 2020, Letícia estava prestes a ingressar numa equipe maior quando o lockdown foi decretado. A contratação não aconteceu. Era a primeira vez que ela enfrentava desemprego. Pouco depois, conseguiu vaga em um restaurante operando com delivery. O movimento era intenso, mas havia brechas. Foi nelas que o projeto começou a ganhar estrutura.

Cumaru da Amazônia no doce de leite: a aposta que transformou uma cozinha caseira em 400 litros por mês

O Instagram foi o primeiro canal. Antes de vender, ela contou a história. Construiu a identidade visual, definiu o posicionamento e apresentou os primeiros produtos — geleias, arroz doce, receitas de festa junina e, desde o dia um, o doce de leite.

O mercado respondeu com clareza. O doce de leite foi ficando. Os outros produtos foram cedendo espaço. Hoje, cerca de 80% da produção é dedicada a ele.

O cumaru como diferencial real

A escolha do cumaru não foi aleatória. A semente, originária da Amazônia, carrega um perfil aromático difícil de substituir — profundo, levemente adocicado, com notas que lembram baunilha e cravo ao mesmo tempo. No doce de leite, o resultado é uma camada sensorial que o produto convencional simplesmente não tem.

“A combinação equilibra tradição e originalidade, transformando um clássico da confeitaria brasileira em uma experiência sensorial única”, define Letícia. Não é um produto premium por embalagem. É premium pela matéria-prima e pela decisão técnica de usá-la com intenção.

Apoio do ecossistema de inovação de Curitiba

Com o crescimento da produção, Letícia buscou suporte fora da própria operação. Foi pesquisando iniciativas locais que chegou ao Vale do Pinhão e à Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação, onde passou a participar de cursos e ampliar a visão de negócio.

“Meu negócio começou muito pequeno, dentro de casa, sem estrutura financeira ou física. Quando a gente inicia assim, precisa encontrar aliados para crescer e se perpetuar. A Agência Curitiba foi uma dessas parceiras nesse processo de amadurecimento”, afirma.

Para o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Paulo Martins, a trajetória de Letícia é um recorte do que o ecossistema local busca estimular. “Curitiba tem talentos que transformam tradição em inovação. Quando uma empreendedora alia técnica, identidade cultural e visão de mercado, ela não só cria um produto diferenciado, mas também gera renda, movimenta a economia e inspira outras pessoas a acreditarem em seus projetos”, diz o secretário.

O presidente da Agência Curitiba, Dario Paixão, reforça a linha. “Nosso compromisso é oferecer capacitação, conexões e oportunidades para que ideias se tornem empresas estruturadas. A trajetória da Letícia mostra que, mesmo começando de forma simples, é possível crescer com planejamento, profissionalismo e apoio adequado”, destaca.

Profissionalismo antes da estrutura

Um dos pontos que separa a Nita Cozinha de Família de outros negócios que surgem em contextos parecidos é a postura que Letícia adotou desde o primeiro produto. Identidade visual definida, rótulos completos, informações claras e apresentação cuidadosa, tudo isso ainda com a produção acontecendo dentro de casa e o mercado notou.

“Teve cliente que ligou pedindo para falar com o setor financeiro, porque parecia uma empresa já estruturada”, lembra a empreendedora.

Aliás, essa visão não é detalhe operacional. É estratégia. Letícia entendeu cedo que a percepção do cliente começa antes do primeiro contato com o produto. A embalagem fala. O rótulo fala. A forma como a marca se apresenta nas redes fala.

O conselho que ela deixa para quem está começando resume bem essa lógica: “Mesmo que o seu negócio seja muito pequeno, ou apenas uma ideia, pense nele desde o primeiro dia como algo grande e possível. A primeira pessoa que precisa acreditar é você. Essa postura muda a forma como você lida com o dia a dia e influencia a maneira como o mercado enxerga o que você está construindo.”

Fonte: AEN / Fotos: Valquir Kiu Aureliano/SECOM

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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