Três em cada quatro copos de suco de laranja servidos no mundo — seja em cafés em Tóquio, supermercados em Berlim ou mesas de café da manhã em Nova York — têm origem nos pomares paulistas. Esse número, por si só, já justifica a existência de um evento como a Expocitros. Mas a edição de 2026 carrega um peso adicional: o setor chega a Cordeirópolis pressionado por anos de instabilidade climática, avanço do greening, altos custos de produção e uma demanda global que não para de crescer. A resposta que a citricultura brasileira dará a esse conjunto de desafios começa a ser desenhada esta semana.
De 26 a 29 de maio, o Centro de Citricultura “Sylvio Moreira” do Instituto Agronômico (IAC) sedia a 51ª Expocitros e a 47ª Semana da Citricultura, reunindo pesquisadores, produtores, empresas e gestores em torno de um tema central: como inteligência artificial, automação, sensoriamento e rastreabilidade podem transformar a eficiência e a sustentabilidade de uma cadeia que movimenta bilhões de dólares por ano.
Ciência construída ao longo de décadas — e posta em debate
O IAC não chega ao evento como observador. Noventa por cento dos campos citrícolas paulistas são instalados com cultivares desenvolvidas pelo Instituto, o que torna cada nova pesquisa aplicada ali um ativo estratégico para todo o setor. A programação da Expocitros 2026 reflete esse protagonismo com densidade: quatro dias de painéis, mesas redondas e apresentações de resultados científicos inéditos, distribuídos por temas que cobrem desde o manejo fitossanitário até os cenários econômicos globais.
“A edição de 2026 deve aprofundar debates ao mesclar ciência, mercado e estratégia. A Expocitros se firma como um ponto de convergência para decisões que vão definir a competitividade da citricultura brasileira na próxima década”, afirma Dirceu Mattos Jr., pesquisador e diretor do Centro de Citricultura do IAC.
A safra 2025/2026 fechou em 293 milhões de caixas de laranja, num cenário de oferta ajustada e alta variação de preços que exige decisões cada vez mais embasadas. É exatamente esse contexto que torna a Expocitros mais do que um evento técnico: ela funciona como um termômetro do que o setor pensa sobre si mesmo e sobre o futuro que quer construir.
O que a pesquisa tem a dizer sobre os próximos dez anos
A abertura do evento dá o tom do que está por vir. A sessão “Sustentabilidade e Inovação” terá apresentações dos pesquisadores do IAC Dirceu Mattos Jr. e Helvecio Della Coletta Filho, com conteúdos que traduzem anos de pesquisa em orientações práticas para o setor.
Mattos Jr. apresentará uma reflexão sobre as transformações da citricultura na última década, abordando desde os desafios impostos por fatores bióticos e abióticos até a consolidação da sustentabilidade como eixo estratégico de competitividade. O pesquisador propõe uma agenda concreta para o futuro, com foco em resiliência, eficiência no uso de recursos e governança do setor num cenário global cada vez mais exigente.
Já Coletta Filho trará resultados de uma pesquisa ainda pouco explorada no universo dos citros: o estudo do microbioma rizosférico das plantas. O IAC vem classificando e avaliando bactérias presentes no sistema radicular dos citros, buscando identificar potenciais efeitos benéficos no crescimento e na proteção contra patógenos.
“Em plantas, principalmente anuais, têm sido cada vez mais comprovados os benefícios da associação de microrganismos com a saudabilidade e produtividade da cultura, como no caso das bactérias promotoras de crescimento nas culturas de soja e milho. Por outro lado, em culturas perenes como os citros, esta área de estudo ainda é pouco explorada”, explica Coletta Filho.
Os dados que serão apresentados na Expocitros incluem a identificação das bactérias presentes no sistema radicular e os potenciais efeitos benéficos mapeados até agora, abrindo caminho para uma nova geração de bioinsumos específicos para citros.
Proteção de plantas, novas variedades e o desafio do greening
No segundo dia, uma das apresentações mais aguardadas trará resultados inéditos de um experimento conduzido em parceria com o Centro de Engenharia da Plasticultura Braskem/FAPESP. O pesquisador Sérgio Alves de Carvalho apresentará dados sobre proteção individual de plantas visando à exclusão do psilídeo, o inseto vetor do greening, na formação inicial do pomar. O experimento foi conduzido com tangerina Ponkan e tangor Dekopon em diferentes porta-enxertos, e os participantes terão acesso em primeira mão aos resultados obtidos nos dois primeiros anos de condução.
Ainda no dia 27, a mesa redonda “Variedades de Citros no Brasil” reunirá pesquisadores do IAC, Embrapa e da iniciativa privada, moderados pelo pesquisador Rodrigo Rocha Latado. A discussão sobre variedades é estratégica num momento em que o setor precisa equilibrar produtividade, resistência a doenças e adequação às demandas do mercado internacional.
O dia 28 concentra temas de gestão e eficiência produtiva, com destaque para a palestra da pesquisadora Alessandra Alves de Souza sobre citros geneticamente modificados no controle do HLB — apresentando o panorama global das estratégias biotecnológicas em desenvolvimento ao redor do mundo. O encerramento, no dia 29, trará análises de mercado, preços, comércio internacional e o impacto do acordo Mercosul–União Europeia para a citricultura brasileira.
Reconhecimentos que contam a história do setor
A cerimônia de abertura entregará a Medalha “Mérito Científico D. Pedro II” do IAC ao ex-ministro de Agricultura Roberto Rodrigues, nascido na mesma fazenda onde hoje funciona o Centro de Citricultura, em Cordeirópolis. A distinção reconhece contribuições inigualáveis ao desenvolvimento científico e ao Estado de São Paulo.
O Prêmio Engenheiro Agrônomo Destaque da Citricultura 2026 será concedido ao pesquisador Hamilton Humberto Ramos, responsável por projetos como o Aplique Bem, o Programa QUEPIA de qualidade de EPIs na agricultura e o Programa Drones SP. Ramos também representa o Brasil no comitê da ISO relacionado à proteção do trabalhador rural aplicador de defensivos, integrando o Consórcio Mundial para Melhoria de Equipamentos de Proteção Individual na Agricultura.
O Prêmio GCONCI Hall da Fama da Citricultura Brasileira homenageará Walter dos Santos Soares Filho, da Embrapa, e o Prêmio Centro de Citricultura será entregue a José de Alencar Matta.
Como participar
A 51ª Expocitros acontece de 26 a 29 de maio, das 8h30 às 17h20, na Rodovia Anhanguera, km 158, em Cordeirópolis (SP). As inscrições podem ser feitas em expocitros.com.br/inscreva-se e a programação completa está disponível no site do evento.




