Poucas regiões do Brasil carregam o peso e o orgulho de ser uma das três maiores bacias leiteiras do país. O Oeste Catarinense é uma delas — e essa posição exige mais do que tradição: exige atualização constante, acesso à pesquisa e diálogo direto entre quem produz e quem estuda. É exatamente esse espaço que o Focaleite ocupa desde sua primeira edição.
A Epagri acaba de abrir as inscrições para o VI Fórum Oeste Catarinense do Leite, marcado para o dia 2 de junho, nas instalações do Centro de Pesquisa para Agricultura Familiar (Cepaf), em Chapecó. A participação é gratuita e o evento reúne, em um único dia, palestras com especialistas de universidades federais e estaduais sobre os temas mais urgentes da pecuária leiteira regional. O fórum acontece em celebração ao Dia Mundial do Leite e conta com apoio do Governo do Estado de Santa Catarina e da Fapesc.
O tema desta edição — “Inovação e Sustentabilidade na Cadeia do Leite” — não é mero slogan. Ele reflete uma pressão real que o produtor leiteiro enfrenta: como aumentar volume e qualidade da produção ao mesmo tempo em que os custos sobem e as cobranças ambientais crescem? A resposta, segundo os pesquisadores que integram a programação, passa pelo manejo eficiente das pastagens e por ajustes precisos na alimentação dos animais.
Pastagem como ponto de partida
A manhã do fórum começa às 8h30 com uma questão que todo pecuarista do Sul do Brasil conhece bem: o verão quente e as pastagens que precisam responder a ele. O professor Leandro Bittencourt de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), especialista em forragicultura e sistemas integrados de produção agropecuária, abre os trabalhos com a palestra “Manejo Eficiente de Pastagens de Estação Quente”.
Doutor em Zootecnia pela UFSM, com período sanduíche no INRA de Toulouse (França) e pós-doutorado na Embrapa, Oliveira é pesquisador com trajetória construída na interface entre solo, planta e animal. Para ele, a escolha das espécies forrageiras e a forma como são manejadas ao longo do verão têm impacto direto na produtividade do rebanho — e poucos produtores exploram esse potencial de forma estratégica.
“A forragicultura de verão é frequentemente subestimada. Quando se trabalha com espécies adequadas e manejo correto da altura do pasto, é possível manter oferta de forragem de qualidade mesmo nos meses mais críticos, reduzindo a dependência de suplementação e o custo por litro produzido”, destaca Oliveira.
Na sequência, o professor Diego Bitencourt de David, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), aprofunda o debate com a palestra “Ajustes de Dieta para Animais em Lactação em Pastagens Estivais”. A proposta é direta: entender como calibrar a alimentação das vacas em fase de lactação quando elas estão em pastagens de verão, período em que a qualidade nutricional da forragem oscila e a demanda do animal é alta.
Tarde dedicada à qualidade e ao futuro do rebanho
Depois do intervalo, o fórum retoma às 14h com dois temas que tocam em dimensões diferentes — mas igualmente estratégicas — da produção leiteira.
A pesquisadora Cristiane Tomaluski, doutora em Ciência Animal e Pastagens pela Esalq/USP, apresenta “Nutrição e Manejo de Terneiras e Novilhas a Pasto”. O tema é frequentemente deixado em segundo plano nas propriedades, mas tem consequências diretas na longevidade produtiva do rebanho. Terneiras bem manejadas nos primeiros meses de vida chegam à primeira lactação mais cedo, com melhor desempenho e menos custos veterinários ao longo da vida útil.
A última palestra do dia, “Efeitos da Dieta na Composição e Qualidade Nutracêutica do Leite”, fica a cargo do professor Dimas de Oliveira, da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Aqui, o foco muda de escala: não é mais apenas sobre produzir mais leite, mas sobre produzir um leite com melhor perfil nutricional — com maior concentração de compostos benéficos à saúde humana, como os ácidos graxos ômega-3 e o ácido linoleico conjugado (CLA), cuja presença no leite é diretamente influenciada pelo que a vaca come.
“A dieta do animal não determina apenas a quantidade de leite produzida, mas sua composição inteira. Vacas que pastejam forragens de qualidade tendem a produzir leite com perfil de gordura mais favorável do ponto de vista nutracêutico, o que abre uma janela de diferenciação de mercado para o produtor que entende isso”, afirma Dimas de Oliveira.
Quem deve participar — e por quê vale o deslocamento
O Focaleite foi concebido para ser plural: técnicos de extensão rural, pesquisadores, estudantes de ciências agrárias, produtores e qualquer pessoa com interesse na cadeia produtiva do leite estão no público-alvo. A gratuidade das inscrições e a concentração de conteúdo técnico de alto nível em um único dia fazem do evento uma oportunidade rara, especialmente para quem está na ponta da produção e nem sempre tem acesso às pesquisas mais recentes das universidades.
Santa Catarina figura entre os maiores estados produtores de leite do Brasil, e o Oeste concentra a maior parte dessa produção. Debater inovação e sustentabilidade nesse contexto não é exercício acadêmico — é necessidade econômica. Os custos de produção pressionam margens, as exigências de rastreabilidade e qualidade aumentam e o mercado consumidor começa a valorizar atributos antes invisíveis, como a composição nutricional do leite.
As inscrições estão abertas e podem ser feitas gratuitamente pelo site da Epagri. O evento acontece no dia 2 de junho, no Cepaf, em Chapecó, a partir das 8h30.




