O licenciamento ambiental no Brasil carrega um histórico consolidado de lentidão. Processos acumulados, planilhas desconectadas, pareceres que dependem de revisão manual etapa por etapa — esse cenário tem travado projetos agropecuários, obras de infraestrutura e expansões industriais em todo o país. No Paraná, uma resposta tecnológica concreta a esse problema foi anunciada nesta quinta-feira (7): o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) e o Instituto Água e Terra (IAT) firmaram parceria para aplicar inteligência artificial diretamente nos fluxos de licenciamento, fiscalização, outorga e análise técnica do órgão ambiental estadual.
A iniciativa coloca em operação a Plataforma Cognitiva do Tecpar, sistema desenvolvido internamente pelo instituto com capacidade de interpretar documentos regulatórios, normas técnicas e relatórios ambientais de forma automatizada. A plataforma não apenas lê os textos — ela os processa, classifica e produz saídas úteis para os analistas do IAT, como minutas, pré-pareceres e checklists ambientais preenchidos automaticamente.
Processos manuais como gargalo real
O diagnóstico que motivou a parceria é direto. O IAT enfrenta crescimento contínuo na demanda por licenças e outorgas, ao mesmo tempo em que parte relevante do trabalho técnico ainda depende de esforço humano repetitivo — inserção de dados, validação de formulários, triagem de documentações, classificação de processos por tipo e complexidade. Para o diretor-presidente do Tecpar, Eduardo Marafon, esse cenário não é exclusividade do órgão ambiental paranaense, mas se materializa com clareza na realidade do IAT.
“Grande parte das atividades administrativas e analíticas continua sustentada por trabalho humano manual, com uso intensivo de planilhas e sistemas pouco integrados. O IAT lida com um volume crescente de processos de licenciamento, outorga, fiscalização, análise técnica, pareceres e autos de infração, e o Tecpar oferece ao órgão ambiental essa plataforma de inteligência artificial que vai apoiá-lo em processos mais rápidos”, destaca Marafon.
A automação não substitui o técnico ambiental — ela retira dele as etapas que consomem tempo sem exigir julgamento especializado. Com isso, o analista passa a concentrar seu trabalho onde ele é insubstituível: na avaliação de impactos, na tomada de decisão e na validação dos resultados gerados pela IA.
Uma transformação que começou em 2019
A parceria com o Tecpar não inaugura a digitalização do IAT — ela aprofunda um processo que o órgão iniciou há alguns anos. Em 2019, o instituto avançou na digitalização de processos internos, reduzindo a dependência de fluxos físicos e aumentando a impessoalidade nas análises. A nova etapa, com suporte de inteligência artificial, representa um salto qualitativo sobre essa base já construída.
Para o secretário estadual do Desenvolvimento Sustentável, Everton Souza, a integração da IA ao fluxo de trabalho do IAT cria condições para decisões mais rápidas e, ao mesmo tempo, mais fundamentadas do ponto de vista técnico e jurídico. “Hoje nós estamos na transformação digital sendo norteada pela inteligência artificial, com diversos procedimentos que podem ser abreviados e agilizados. Queremos poder tomar decisões muito mais rápidas, muito mais transparentes e muito mais legais, do ponto de vista do cumprimento das questões técnicas e jurídicas”, afirma Souza.
A rastreabilidade é um dos pontos centrais do projeto. Cada etapa automatizada pela plataforma deixa registro, o que garante auditabilidade dos processos e reduz o risco de questionamentos jurídicos posteriores — aspecto crítico para empreendimentos agropecuários e industriais que dependem de licenças para operar.
O que a plataforma faz na prática
A Plataforma Cognitiva do Tecpar atua em camadas complementares dentro do IAT. Na entrada dos processos, ela realiza triagem automática e classifica cada demanda por tipo, complexidade e prioridade, direcionando o fluxo de trabalho sem intervenção manual. Na fase de análise, a plataforma interpreta relatórios ambientais, pareceres anteriores, normas técnicas e autos de infração, cruzando informações e identificando inconsistências que poderiam passar despercebidas em uma revisão convencional.
Além disso, o sistema gera minutas e pré-pareceres a partir dos dados processados, entregando ao analista um documento estruturado que pode ser revisado, complementado e assinado — reduzindo significativamente o tempo de elaboração. O mapeamento e priorização dos processos de outorga e fiscalização também integram as funcionalidades previstas, permitindo ao IAT identificar quais demandas exigem atenção imediata e quais podem seguir fluxos simplificados.
Para o produtor rural e o empreendedor que aguardam uma licença ambiental para iniciar ou ampliar atividades, esse conjunto de funcionalidades se traduz em prazos menores e maior previsibilidade. O gargalo burocrático que historicamente retardava projetos passa a ter, no Paraná, uma resposta tecnológica baseada em capacidade analítica desenvolvida dentro do próprio estado.




