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Pecuaria

Leite de jumenta: o lácteo de R$ 300 o litro que divide especialistas no Brasil

Produto com composição próxima ao leite materno humano atrai indústria farmacêutica, mas produção enfrenta barreiras biológicas e sanitárias que impedem escala comercial

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Leite de jumenta: o lácteo de R$ 300 o litro que divide especialistas no Brasil

O debate sobre a viabilidade econômica da criação de jumentos no Brasil ganhou um novo capítulo. Além da polêmica em torno do abate para exportação de pele e carne, agora a produção de leite de jumenta entra na discussão. O produto, considerado premium no mercado internacional, divide opiniões entre quem vê potencial lucrativo e quem aponta inviabilidade técnica.

Os números chamam atenção. No mercado europeu, o litro do leite de jumenta oscila entre 30 e 50 euros — algo em torno de R$ 180 a R$ 300, dependendo da oferta. Esse patamar coloca o produto acima de muitos vinhos finos e óleos especiais. Mas há um porém: cada jumenta produz entre 0,2 e 0,3 litro por dia. A conta não fecha para quem pensa em escala.

Composição nutricional atrai nichos específicos

Segundo Gustavo Ferrer Carneiro, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o leite de jumenta carrega características únicas. “Entre outras alternativas, o leite de jumenta pode ser destinado a públicos com intolerância ou alergia ao leite de vaca, especialmente devido ao reduzido teor de caseína”, explica. A composição proteica é semelhante à do leite humano, o que facilita a digestão e amplia as possibilidades de uso.

O baixo teor de gordura e a presença de compostos bioativos reforçam o apelo para nichos de alimentação especializada. Carneiro destaca ainda que “o leite de jumenta é utilizado como tratamento em UTIs neonatais na Itália e tem propriedades até mesmo contra tensão pré-menstrual (TPM), pela presença de elementos anti-inflamatórios”. A lisozima, enzima com ação antimicrobiana natural, é um dos principais atrativos para a indústria farmacêutica.

No Nordeste, práticas tradicionais já recomendam o leite de jumenta para crianças em situações específicas. Entretanto, o conhecimento empírico ainda carece de validação científica robusta para justificar a estruturação de uma cadeia comercial.

O queijo mais caro do mundo vem de jumenta

O mercado de luxo já descobriu o potencial do leite de asininos. Na Sérvia, o queijo Pule — produzido exclusivamente com leite de jumenta — figura entre os mais caros do mundo. Cada quilo pode ultrapassar mil euros. Porém, a produção artesanal e em pequena escala reforça o argumento de que o produto funciona como item de nicho, não como commodity.

Para Carneiro, esse posicionamento premium poderia viabilizar margens superiores às de produtos tradicionais. Mas a realidade biológica dos jumentos impõe limites difíceis de contornar.

Reprodução lenta é o principal entrave

Patricia Tatemoto, coordenadora da The Donkey Sanctuary, não vê viabilidade técnica para a produção láctea em escala comercial. “Existem vários gargalos científicos sobre a atividade. Para avançar nesse sentido, seria preciso muito estudo. Eu defendo o princípio da precaução”, posiciona-se a especialista, que se define como bem-estarista.

O problema central está na biologia da espécie. Os jumentos não passaram por programas consistentes de melhoramento genético voltados à produção de leite. A reprodução é lenta, o ciclo produtivo é longo e a quantidade de leite por animal é mínima. Diferente de vacas leiteiras, que foram selecionadas por décadas para otimizar a produção, as jumentas mantêm características de animais de tração e carga.

Tatemoto alerta que mudar o foco da pele ou da carne para o leite não resolve o principal limite da espécie. Pelo contrário, pode agravar problemas sanitários. “Estudos indicam que o transporte gera estresse mensurável em jumentos, com impacto fisiológico e comportamental, fator que aumenta riscos inclusive de zoonoses”, observa.

Falta governança e rastreabilidade

A especialista também questiona a capacidade do Brasil de estruturar uma cadeia segura para o leite de jumenta. O país ainda não possui rastreabilidade efetiva nem fiscalização robusta para garantir qualidade e sanidade em produtos lácteos não convencionais. A intensificação logística necessária para viabilizar uma cadeia comercial implicaria maior concentração de animais, o que eleva riscos sanitários.

A experiência internacional reforça as dúvidas. Mesmo em países europeus, onde há tradição no consumo do produto, a produção permanece artesanal e restrita a pequenos produtores. Modelos baseados em escala não se mostraram viáveis até o momento.

E agora?

O leite de jumenta continuará como item de nicho premium, voltado a mercados específicos e com pouca perspectiva de produção em larga escala no Brasil. O alto valor agregado não compensa as barreiras biológicas e sanitárias. Para quem pensa em diversificar a criação de jumentos, a realidade é clara: a espécie não foi moldada para a indústria láctea. O mercado internacional pode pagar caro pelo produto, mas a natureza impõe limites que a economia, sozinha, não consegue superar.

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