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Mais de 200 anos depois, araras-canindé reaparecem no céu do Rio de Janeiro

by Derick Machado
24 de janeiro de 2026
in Natureza
Mais de 200 anos depois, araras-canindé reaparecem no céu do Rio de Janeiro

Desde o último dia 7, o céu do Rio de Janeiro ganhou novamente tons de azul e amarelo que não eram vistos em liberdade há mais de dois séculos. Três araras-canindé voltaram a voar na capital fluminense, marcando um acontecimento inédito desde 1818, último registro da espécie em vida livre no município, ainda no período colonial.

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O retorno dessas aves não representa apenas um espetáculo visual. Ele simboliza, sobretudo, um avanço concreto na restauração ecológica da Mata Atlântica urbana, em uma das cidades mais pressionadas pela expansão urbana no país.

Fernanda, Fátima e Sueli — nomes inspirados em figuras conhecidas da cultura brasileira — passaram sete meses em aclimatação no Parque Nacional da Tijuca antes de ganharem liberdade. O macho Selton, que também integra o grupo, deverá ser solto após concluir o processo natural de troca de penas, etapa essencial para garantir seu pleno desempenho em voo.

A preparação para a vida em liberdade

A soltura foi precedida por um período rigoroso de adaptação. As aves ficaram em um viveiro especialmente construído para essa fase, onde passaram por treinamento comportamental e transição alimentar. Durante esse período, aprenderam a reconhecer frutos nativos da floresta e a reduzir qualquer associação positiva com a presença humana.

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Segundo Lara Renzeti, bióloga do Refauna e coordenadora do projeto de reintrodução, o processo exige acompanhamento constante. “São muitas habilidades novas que elas ainda precisam aprender para sobreviver, que não são totalmente replicáveis dentro do recinto de aclimatação”, explica. “Elas só vão conhecer a floresta estando nela. Por isso, nós precisamos acompanhá-las para identificar em que pontos estão se saindo bem e onde precisam de mais apoio.”

Nos primeiros dias após a soltura, uma plataforma de suplementação alimentar foi instalada em árvores do parque. Contudo, essa fase já foi encerrada, permitindo que as araras passem a depender exclusivamente dos recursos naturais disponíveis na floresta.

Cada indivíduo está identificado com colar, anilha e microchip, o que permite monitoramento detalhado. Além disso, o projeto incentiva a população a enviar fotos e vídeos para auxiliar no acompanhamento dos deslocamentos, embora os pesquisadores reforcem que não deve haver qualquer tentativa de aproximação ou interação.

Uma reconstrução ecológica em curso

Antes de chegarem ao Rio de Janeiro, as araras viviam em Aparecida, interior de São Paulo, após terem sido resgatadas de situações de posse ilegal. Elas passaram por uma bateria de exames sanitários e avaliações comportamentais até serem consideradas aptas para a reintrodução.

O plano do Refauna é ambicioso. A expectativa é que 50 araras-canindé sejam reintroduzidas ao longo de cinco anos. Novos grupos já estão em avaliação e poderão chegar ao Parque da Tijuca em 2026, fortalecendo a base populacional da espécie na região.

Além da beleza cênica, a presença das araras tem impacto direto na dinâmica da floresta. Essas aves desempenham papel essencial na dispersão de sementes de árvores nativas, contribuindo para a regeneração do bioma. Em alguns casos, são as únicas capazes de romper sementes mais duras, o que amplia sua importância ecológica.

Mata Atlântica urbana e o papel da sociedade

A volta das araras também provoca uma reflexão mais ampla sobre a relação entre cidade e natureza. O Parque Nacional da Tijuca, considerado uma das maiores florestas urbanas replantadas do mundo, torna-se novamente cenário de um processo de restauração que une ciência, gestão pública e participação popular.

Viviane Lasmar, chefe do Parque Nacional da Tijuca, destaca o significado simbólico e ambiental da iniciativa. “O mesmo ser humano que, ao longo do tempo, não soube conviver com os animais que habitavam as florestas e que também os caçou, é capaz de mudar esse comportamento e trabalhar pela recuperação e preservação desses bichos”, afirma.

Ela ressalta ainda que o parque demonstra capacidade de oferecer os recursos necessários para a espécie prosperar. “Mesmo com toda a pressão urbana que nos cerca, a floresta se mantém preservada e capaz de fornecer frutos, árvores para nidificação, abrigo e água potável. Há condições reais para que uma população viável se estabeleça.”

Para que isso aconteça, entretanto, a colaboração da sociedade é fundamental. Campanhas educativas vêm sendo realizadas para orientar moradores sobre como agir ao avistar as aves, reforçando a importância do respeito e da não interferência.

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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