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Cinco décadas de ciência moldaram a nova agricultura irrigada do Cerrado

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Cinco décadas de ciência moldaram a nova agricultura irrigada do Cerrado

Durante muito tempo, o Cerrado foi visto como um território de limitações. Solo ácido, longos períodos de estiagem e uma agricultura baseada quase exclusivamente na subsistência faziam parte do cenário predominante até meados da década de 1970. No entanto, ao longo dos últimos 50 anos, esse panorama foi profundamente alterado pela ciência aplicada, especialmente pela pesquisa em irrigação, que passou a redefinir as possibilidades produtivas, sociais e econômicas da região.

A transformação não se restringe aos números da produção agrícola. Ela se reflete diretamente na permanência das famílias no campo, na geração de renda local e na valorização da terra como meio de vida. Projetos recentes de fruticultura irrigada no Vão do Paranã, em Goiás, mostram como o acesso à tecnologia e ao conhecimento técnico permite que agricultores deixem de migrar para os grandes centros urbanos e encontrem dignidade e perspectiva em suas próprias propriedades. Em poucos anos, iniciativas desse tipo ampliaram de forma expressiva o número de famílias atendidas, demonstrando o alcance social da ciência quando ela chega ao campo de forma estruturada.

No centro desse processo está a atuação contínua da pesquisa agropecuária no Cerrado, que assumiu, desde os anos 1970, o desafio de produzir alimentos em um ambiente até então considerado adverso. A irrigação tornou-se um dos pilares dessa mudança, ao oferecer segurança produtiva, reduzir riscos climáticos e permitir o cultivo de espécies que não se desenvolveriam apenas com a água das chuvas.

Irrigação como estratégia de desenvolvimento

Embora a irrigação seja utilizada desde a Antiguidade como forma de garantir colheitas em regiões de clima irregular, no Cerrado brasileiro ela assumiu um papel ainda mais estratégico. Em um bioma marcado por chuvas concentradas em poucos meses do ano, a oferta controlada de água passou a viabilizar sistemas produtivos mais intensivos e diversificados.

Com o avanço da irrigação, culturas como café, trigo, frutas e até uvas destinadas à produção de vinhos finos encontraram condições adequadas para se desenvolver. Além disso, a possibilidade de realizar duas ou até três safras anuais transformou a dinâmica econômica de regiões inteiras, impulsionando o desenvolvimento local e criando novos polos agrícolas, como ocorreu no oeste da Bahia e, mais recentemente, no Vale do Rio Paranã.

Esse salto produtivo só foi possível porque a irrigação passou a ser tratada não como um simples complemento, mas como uma prática baseada em critérios técnicos, planejamento e uso racional da água. Em um contexto de mudanças climáticas e crescente pressão sobre os recursos hídricos, essa abordagem se tornou ainda mais relevante.

Meio século de pesquisa dedicada ao uso da água

Os primeiros registros formais sobre irrigação no Cerrado datam de 1976, quando estudos iniciais demonstraram a viabilidade de culturas irrigadas em solos do Brasil Central. A partir desse marco, uma trajetória contínua de pesquisas passou a reunir dezenas de profissionais dedicados ao desenvolvimento de métodos, equipamentos e estratégias de manejo da água.

Nas décadas seguintes, surgiram inovações que mudaram profundamente a eficiência dos sistemas de irrigação. Entre elas, destacaram-se tecnologias capazes de controlar com maior precisão a lâmina de água aplicada, reduzindo perdas e aumentando a produtividade. O uso de instrumentos para monitorar a umidade do solo permitiu decisões mais assertivas no campo, diminuindo o desperdício e fortalecendo a sustentabilidade hídrica das lavouras.

Esses avanços foram particularmente importantes para culturas perenes, como o café, em regiões onde a irrigação passou a ser decisiva não apenas para manter a produção, mas também para elevar a qualidade do produto final. A racionalização do uso da água mostrou que é possível produzir mais, com menor consumo, desde que o manejo seja baseado em dados e conhecimento técnico.

Tecnologias que ampliaram a eficiência no campo

Com a consolidação dos sistemas de irrigação pressurizada, como aspersão, pivô central e gotejamento, as pesquisas avançaram para atender diferentes escalas e tipos de cultivo. No Cerrado, o pivô central ganhou destaque por sua capacidade de irrigar grandes áreas com elevada eficiência e baixa demanda por mão de obra, tornando-se uma solução viável para propriedades de maior extensão.

Ao mesmo tempo, métodos como gotejamento e microaspersão passaram a ser amplamente utilizados em fruticultura e horticultura, por permitirem a aplicação localizada da água diretamente na zona radicular das plantas. Essa precisão resultou em ganhos expressivos de eficiência, com menor consumo de água e energia, além de maior controle sobre o desenvolvimento das culturas.

Essas tecnologias também abriram espaço para estratégias mais sofisticadas de manejo, como o estresse hídrico controlado, que passou a ser adotado em algumas culturas para sincronizar fases do desenvolvimento vegetal e melhorar a qualidade da colheita. Ao integrar irrigação com práticas agronômicas adequadas, foi possível alcançar resultados superiores tanto do ponto de vista produtivo quanto ambiental.

Expansão do conhecimento e integração de áreas

Ao longo dos anos, a pesquisa em irrigação no Cerrado deixou de atuar de forma isolada e passou a incorporar contribuições de áreas como física do solo, agrometeorologia, modelagem matemática e geoprocessamento. Essa integração ampliou a compreensão do bioma em diferentes escalas, desde parcelas agrícolas até grandes bacias hidrográficas.

Os estudos sobre recursos hídricos ganharam força a partir do final dos anos 1990, confirmando, com dados técnicos, o papel do Cerrado como o chamado “berço das águas do Brasil”. O bioma contribui para a formação de doze grandes regiões hidrográficas, o que reforça a importância de uma gestão cuidadosa e baseada em ciência.

Mais recentemente, o foco das pesquisas tem se voltado para o uso de sensores de umidade do solo, estações meteorológicas automatizadas e o desenvolvimento de softwares e aplicativos voltados ao manejo da irrigação. Essas ferramentas oferecem maior segurança ao produtor, permitindo decisões em tempo real e reduzindo a exposição aos riscos climáticos.

Impactos nacionais e projeção internacional

O resultado desse esforço contínuo é visível em escala nacional. Hoje, o Cerrado concentra mais de 40% da área irrigada do Brasil e responde por cerca de 60% da produção agrícola do país. Alimentos produzidos no Planalto Central abastecem diferentes regiões brasileiras e também chegam a mercados internacionais, consolidando o bioma como um dos pilares da segurança alimentar.

Essa transformação deixa uma lição clara: a agricultura irrigada no Cerrado não é apenas a agricultura de sequeiro com adição de água. Trata-se de um modelo construído com base em ciência, inovação e planejamento, resultado de cinco décadas de pesquisa dedicada a entender o território, respeitar seus limites e potencializar suas vocações produtivas.

Fonte: Por: Maria Emília Borges Alves
Pesquisadora da Embrapa Cerrados

Juliana Miura
Jornalista da Embrapa Cerrados

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    Comunicador Social com especialização em Mídias Digitais e quase uma década de experiência na curadoria de conteúdos para setores estratégicos. No Agronamidia, Cláudio atua como Redator-chefe, liderando uma equipe multidisciplinar de especialistas em agronomia, veterinária e desenvolvimento rural para garantir o rigor técnico das informações do campo. É também o idealizador do portal Enfeite Decora, onde aplica sua expertise em paisagismo e arquitetura para conectar o universo da produção natural ao design de interiores. Sua atuação multiplataforma reflete o compromisso em traduzir temas complexos em conteúdos acessíveis, precisos e com alto valor informativo para o público brasileiro.

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