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Pecuaria

Pastagens ganham status global e colocam eficiência do pasto no radar da pecuária brasileira

Com chancela da ONU e avanço da inteligência artificial, manejo passa a determinar produtividade, carbono e competitividade no campo

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Pastagens ganham status global e colocam eficiência do pasto no radar da pecuária brasileira

No Brasil, isso significa olhar para 160 milhões de hectares de pasto, área que representa cerca de 19% do território nacional. É ali que praticamente 100% da pecuária de corte passa em alguma fase da vida do animal. Mesmo o boi que termina no confinamento nasceu ou recriou a pasto. O sistema começa ali. E termina ali.

O problema é que nem todo pasto entrega o que poderia.

A estimativa de áreas degradadas varia de 12 a 100 milhões de hectares. Essa diferença não é detalhe técnico. É sinal de que o conceito de degradação ainda divide o setor. Parte do campo sofre erosão e perda de cobertura. Outra parte perde vigor pela invasão de plantas indesejadas. E isso muda completamente o diagnóstico.

Como explica Patrícia Santos, pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste, a degradação pode ser tanto física quanto biológica. “A degradação do pasto pode ser tanto em função de uma degradação da terra – o pasto que está descoberto, com erosão –, quanto pode ser uma degradação que vem da presença de plantas invasoras.” Em alguns biomas, essa distinção é determinante para decidir se o produtor corrige solo, reforma área ou ajusta manejo.

E aqui está o ponto central: pasto degradado não fecha conta.

Estudos da própria Embrapa mostram que uma área degradada dificilmente ultrapassa 150 kg de peso vivo por hectare ao ano. Em pasto recuperado, esse número pode dobrar ou até triplicar. A diferença entre prejuízo e margem pode estar na qualidade do capim.

Logística ainda é o gargalo? Não. Hoje o gargalo é produtividade do solo.

Pasto natural exige estratégia, não romantização

Cerca de 50 milhões de hectares no Brasil são pastagens naturais, concentradas no Pantanal, Pampa e Caatinga, com manchas na Amazônia e no Cerrado. São áreas vulneráveis. E estratégicas.

Segundo Patrícia, muitas dessas áreas foram substituídas por pasto plantado nas últimas décadas.

“Hoje você tem cerca de 160 milhões de hectares de pastagens e cerca de 50 milhões de pasto natural. São áreas bastante vulneráveis, que precisam ser olhadas com bastante cuidado.”

O campo nativo presta serviços ambientais. Mantém biodiversidade. Estoca carbono. Mas também precisa produzir. A sustentabilidade não está em abandonar o uso produtivo, e sim em ajustar a lotação, o manejo e o calendário.

Em algumas regiões, a combinação de pasto plantado com pasto natural faz mais sentido do que escolher um lado. Mistura de sistemas. Mix de produção. Planejamento de longo prazo.

Braquiária é vantagem competitiva. Mas tem prazo

Grande parte da pecuária brasileira avançou sobre o território com base em pastagens plantadas, principalmente braquiárias. Clima favorável, correção de solo, fertilidade e manejo permitiram altas taxas de lotação.

Como afirma Júlio Barcellos, coordenador do Nespro/UFRGS, “esses pastos na estação das águas produzem muito. Não tem nenhum outro lugar no mundo que produza tanto pasto.”

Esse é o motor da carne barata brasileira.

Mas o ciclo não é eterno. Muitas áreas estão há 20 ou 30 anos em processo de degradação progressiva. Capim envelhece. Solo empobrece. Lotação cai. A conta chega.

Barcellos resume com precisão: “A pastagem é o grande fator de competitividade da pecuária brasileira.” Quando ela perde vigor, o sistema perde margem.

Integração lavoura-pecuária-floresta entra como alternativa técnica para renovar área com custo diluído. Rotaciona atividade. Recupera solo. Mantém caixa girando. Ainda assim, muitos produtores seguem no modelo extensivo tradicional. O potencial continua subutilizado.

Campo nativo vira ativo internacional

No Pampa, produtores organizados desde 2006 na Alianza del Pastizal vêm defendendo o manejo sustentável dos campos naturais. São mais de 210 mil hectares sob boas práticas.

A declaração da ONU dialoga diretamente com esse movimento. Como explica Pedro Pascotini, coordenador da Alianza del Pastizal no Brasil, o termo rangelands se refere justamente aos campos nativos.

“Todas as ações que desenvolvemos no Pampa, voltadas à valorização do campo nativo e ao manejo sustentável com a promoção de boas práticas pecuárias, dialogam diretamente com o International Year of Rangelands and Pastoralists.”

Isso abre janela de visibilidade internacional. Mercado premium olha. Investidor ambiental também.

Inteligência artificial entra no piquete

Se o debate global coloca o pasto no centro, a tecnologia começa a mudar o jogo no campo.

Ferramentas de monitoramento via satélite e machine learning já permitem acompanhar vigor vegetativo, tempo de descanso, impacto climático e histórico de uso por piquete. Sai o achismo. Entra dado.

A JetBov lançou um sistema de Monitoramento de Pasto Inteligente que cruza dados climáticos, vegetativos e operacionais da própria fazenda para criar algoritmos específicos para cada propriedade.

Na prática, o produtor visualiza a qualidade do pasto ao longo do tempo e ajusta manejo antes da quebra de safra do capim. Isso muda decisão de lotação. Muda suplementação. Muda estratégia de confinamento.

Para Xisto Alves, CEO da JetBov, o desafio ainda é cultural. “A maioria das fazendas não está nesse processo de piqueteamento, nem de trabalhar a nutrição de forma mais estratégica. O gargalo é sair do modelo extensivo para um mais intensivo, o que exige mais gestão.”

E gestão custa. Mas produz.

A discussão deixou de ser apenas ambiental. Agora é econômica. O Brasil já tem área suficiente. O que falta é transformar hectare em eficiência.

O mundo está olhando para as pastagens. A pergunta é se o produtor brasileiro vai olhar para elas com a mesma atenção — e ajustar o manejo antes que o custo invisível do capim cansado apareça no preço da arroba.

Fonte: Globo Rural

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