Agro
Preço do feijão carioca acelera e acende alerta de oferta curta no Brasil
Quebra na disponibilidade do grão muda o ritmo das negociações e eleva cotações em pleno período de colheita
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O feijão carioca entrou em fevereiro em ritmo acelerado e virou o principal vetor de valorização do mercado interno. Depois da reação observada no feijão preto no início do ano, agora foi a vez do carioca assumir o protagonismo. Os preços avançaram rapidamente e já acumulam alta superior a 20% em relação a janeiro, segundo dados do Cepea. Em algumas praças comerciais, o movimento foi ainda mais intenso. O salto passou dos 30%.
O mercado sentiu o aperto.
Diferentemente de movimentos especulativos pontuais, a alta atual nasce de um fator clássico do agro: falta produto disponível. A colheita enfrentou limitações produtivas e a área plantada encolheu em ciclos recentes, reduzindo o volume que chega ao mercado justamente no momento em que a demanda permanece ativa, tanto no atacado quanto no varejo.
Oferta curta pressiona negociações porteira para fora
O ponto central não está apenas na primeira safra. A segunda também entra no radar com restrições produtivas, o que limita a recomposição da oferta ao longo do semestre. Quando as duas janelas produtivas apresentam redução simultânea, o efeito aparece direto no preço disponível. E foi exatamente isso que aconteceu.
Sob essa dinâmica, compradores passaram a disputar lotes de melhor qualidade, elevando as referências de negociação em várias regiões produtoras. O mercado deixou de operar em ritmo confortável e migrou para um ambiente de reposição cautelosa. Quem precisa comprar, paga mais rápido. Quem tem produto, segura.
A lógica é simples: menos feijão circulando significa maior poder de barganha do vendedor.
Menor disponibilidade em uma década muda leitura do setor
Os números da Conab reforçam a dimensão do ajuste. A safra brasileira de feijão em 2026 deve alcançar cerca de 2,97 milhões de toneladas, o menor volume dos últimos quatro anos. Quando se adicionam estoques iniciais e importações, a disponibilidade total estimada chega a 3,09 milhões de toneladas — o menor nível em dez anos, próximo ao observado na temporada 2015/16.
Esse dado altera completamente a leitura do mercado. Não se trata apenas de oscilação sazonal. Trata-se de uma recomposição estrutural da oferta, resultado de mudanças no mix de produção, competição com culturas mais rentáveis e decisões estratégicas tomadas ainda na janela de plantio.
O produtor respondeu ao cenário econômico anterior. Agora o mercado responde à consequência.
Demanda ativa mantém preços firmes
Mesmo com valores mais elevados, o consumo não perdeu força relevante até o momento. O feijão carioca segue como item básico da alimentação brasileira, o que reduz a elasticidade da demanda. Em outras palavras, o consumidor até sente o preço, mas continua comprando.
Assim, a equação atual combina oferta limitada com demanda constante — um dos cenários mais favoráveis para sustentação de preços no curto prazo. Além disso, compradores institucionais e empacotadores seguem ativos, antecipando compras para evitar custos ainda maiores mais adiante.
O mercado opera atento. Cada novo lote disponível passa a influenciar rapidamente as referências de preço.
O que explica a alta — e o que observar agora
A valorização não ocorreu por aumento de consumo repentino, mas pela redução do volume ofertado. Foi um choque de oferta, não de demanda. Isso muda o tipo de risco envolvido. Caso a próxima safra confirme produtividade abaixo do esperado ou enfrente problemas climáticos, o ajuste pode se prolongar.
Por outro lado, preços mais altos tendem a estimular o plantio nas próximas janelas. O produtor faz conta rápida. Se a rentabilidade melhorar frente a culturas concorrentes, a área pode reagir já no próximo ciclo.
Até lá, o mercado deve continuar sensível a qualquer sinal de disponibilidade. Quem acompanha o feijão sabe: quando o estoque encurta, a reação é rápida — e raramente suave.
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