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Relatório da Esalq-Log aponta que créditos acumulados e gargalos estruturais limitam ganhos de eficiência

by Derick Machado
28 de janeiro de 2026
in Agro
Foto: Neide Makiko/ Embrapa Informática Agropecuária

Foto: Neide Makiko/ Embrapa Informática Agropecuária

O etanol brasileiro consolidou-se como um dos pilares da matriz energética renovável do país, sendo frequentemente citado como exemplo internacional de biocombustível em larga escala. Entretanto, apesar dos ganhos em eficiência produtiva e da ampliação de alternativas logísticas, desafios estruturais e fiscais continuam limitando sua competitividade frente à gasolina. É o que revela um levantamento recente do grupo Esalq-Log, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP), ao analisar a cadeia de transporte e armazenagem do combustível no território nacional.

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Embora a logística tenha evoluído nos últimos anos, especialmente com maior integração entre modais, o estudo aponta que a estrutura tributária ainda impõe custos adicionais que comprometem parte dos avanços conquistados.

Intermodalidade avança, mas dependência rodoviária ainda pesa

Historicamente dependente do transporte rodoviário, o escoamento do etanol começa a apresentar sinais de diversificação. Se em 2019 o modal rodoviário representava 82% da movimentação do combustível, em 2024 essa participação recuou para 71%. Paralelamente, as dutovias ampliaram sua presença de 8% para 14%, enquanto as ferrovias passaram de 6% para 10%.

Esse movimento indica um esforço do setor em reduzir custos energéticos e emissões, além de melhorar a eficiência operacional. Ainda assim, o transporte por caminhões continua predominante, especialmente nas conexões entre usinas do Centro-Sul e Centro-Oeste e os principais polos consumidores, localizados a centenas de quilômetros de distância.

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Thiago Guilherme Pêra, pesquisador da Esalq e membro do Conselho Científico Agro Sustentável, ressalta que a complexidade logística do etanol vai além da simples movimentação do produto. “O etanol conecta polos produtores concentrados no Centro-Sul e Centro-Oeste a mercados consumidores distantes. Por isso, a intermodalidade é essencial para ganhos de eficiência”, afirma.

Entretanto, apesar da ampliação de dutos e trilhos, o sistema ainda depende de investimentos contínuos em infraestrutura e de maior coordenação entre usinas, tradings e distribuidoras. Sem esse alinhamento, a cadeia perde parte da eficiência potencial.

Tributação gera distorções e encarece o biocombustível

Se os gargalos estruturais representam um desafio físico, a tributação se configura como obstáculo sistêmico. O regime monofásico de PIS e Cofins aplicado ao setor, embora simplifique a arrecadação, tem provocado acúmulo de créditos fiscais que não conseguem ser compensados pelas comercializadoras.

Esse acúmulo ocorre principalmente nas etapas de frete e armazenagem, elevando o custo operacional da cadeia. De acordo com as simulações apresentadas no estudo, a impossibilidade de recuperação desses créditos pode acrescentar até R$ 0,10 por litro ao preço final do etanol, dependendo do trajeto e do modal utilizado.

Para Pêra, o impacto ultrapassa o valor nominal. “O impacto não está apenas no valor, mas no efeito sistêmico: os modais mais sustentáveis acabam sendo penalizados por uma estrutura tributária que desestimula a intermodalidade”, explica.

Esse cenário cria um paradoxo. Enquanto políticas públicas defendem a descarbonização e o fortalecimento de combustíveis renováveis, o modelo tributário vigente acaba dificultando a adoção de soluções logísticas mais eficientes e ambientalmente vantajosas.

Competitividade depende de previsibilidade e ajustes estruturais

O Brasil reúne vantagens comparativas relevantes na produção de etanol, como produtividade agrícola elevada, domínio tecnológico e mercado consumidor consolidado. Contudo, a competitividade não depende apenas da eficiência no campo. A previsibilidade fiscal e a redução de distorções logísticas são determinantes para que o biocombustível amplie sua participação tanto no mercado interno quanto nas exportações.

Além disso, o avanço da gasolina subsidiada em determinados momentos e as oscilações de preços internacionais reforçam a necessidade de um ambiente regulatório estável. Sem ajustes específicos na tributação e maior integração da infraestrutura, parte do potencial estratégico do etanol pode ser comprometido.

Assim, embora a cadeia logística tenha evoluído e a intermodalidade esteja em expansão, o estudo da Esalq-Log indica que o verdadeiro salto competitivo do etanol brasileiro passa por reformas que alinhem tributação, infraestrutura e metas de sustentabilidade. Somente com essa convergência será possível consolidar o combustível renovável como protagonista da transição energética nacional.

Fonte: Portaldoagronegocio

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em agronegócio. Acompanha de perto as principais pesquisas, tecnologias e movimentos de mercado que impactam produtores rurais brasileiros, com base em fontes institucionais como Embrapa, Cepea/Esalq, MAPA e IBGE.

    E-mail:  contato@agronamidia.com.br

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