A triticultura gaúcha entra na janela de planejamento da safra de inverno de 2026 com um sinal claro de retração. A Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (FecoAgro-RS) projeta uma queda de 15% na área plantada com trigo em relação ao ciclo anterior, quando a cultura ocupou cerca de 1,15 milhão de hectares no Rio Grande do Sul. O número representa a saída de aproximadamente 170 mil hectares da triticultura gaúcha, num movimento que combina custos crescentes, preços de mercado estagnados e um produtor que chegou ao limite da equação econômica.
O gatilho mais imediato para esse recuo está no comportamento dos insumos. A escalada nos preços do óleo diesel e dos fertilizantes, agravada pelo conflito no Oriente Médio, região estratégica para rotas logísticas e fornecedores globais de matérias-primas para a agricultura, elevou o custo de produção do trigo a um patamar que estreita — ou elimina — a margem do produtor. Se na safra de 2025 já era necessário destinar em torno de 50 sacas por hectare para cobrir os gastos com a lavoura, hoje esse número saltou para 67 sacas.
“Não era ideal, mas se conseguia plantar um hectare de trigo. Hoje passa para 67 sacas de trigo o custo de produção, devido a esse aumento de diesel e fertilizante, principalmente”, explica Adriano Borghetti, presidente da FecoAgro-RS.
Preço do cereal não acompanha a pressão dos custos
O problema não está apenas no custo. Está, também, na ausência de uma cotação que justifique o risco. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), a tonelada de trigo brando no Rio Grande do Sul foi negociada a R$ 1.167,76 em abril, enquanto a saca de 60 quilos oscilava em torno de R$ 59 no mesmo período, conforme levantamento da Emater/RS-Ascar. Com o custo de produção na casa das 67 sacas por hectare e o preço de mercado nesse patamar, a conta simplesmente não fecha para grande parte dos triticultores gaúchos.
Esse descompasso entre despesa e receita não é novidade na triticultura do Sul, mas o agravamento do cenário em 2026 empurra muitos produtores para além do ponto de indiferença. Aliás, a sequência de resultados negativos em outras culturas também pesa nessa decisão. Os prejuízos acumulados na soja ao longo dos últimos anos — fruto de estiagens e enchentes que castigaram o Estado — reduziram a capacidade de investimento das propriedades e aumentaram a aversão ao risco na hora de definir o que plantar no inverno.
“O produtor está muito indeciso. Aquele que sempre plantou, teve vários anos em que olhava a conta na hora de plantar. Era muito apertado, mas depois ele plantava, olhando para a diversificação na propriedade. Neste ano, alguns vão olhar para o custo do trigo e não vão plantar”, afirma Borghetti.
Canola avança onde o trigo recua
A retração do trigo não significa, necessariamente, que os campos gaúchos ficarão ociosos no inverno. A FecoAgro-RS projeta que a canola deve dobrar de área em 2026, atingindo 400 mil hectares ante os aproximadamente 200 mil hectares cultivados na safra anterior. A oleaginosa vem ganhando espaço na estratégia de diversificação de inúmeras propriedades do Sul, apoiada por três fatores que, combinados, tornam a cultura mais competitiva neste momento: cotações atrativas, relação de troca favorável em comparação ao trigo e abertura de novos canais de exportação que ampliaram a demanda pelo grão no mercado brasileiro.
O planejamento para essa expansão, segundo Borghetti, foi estruturado nos últimos meses de 2025, antes da nova rodada de alta nos fertilizantes, o que reforça a atratividade econômica da canola neste ciclo. “A canola tem liquidez, a relação de troca fica mais atrativa. E começou a exportação, o produtor começou a entrar nesse movimento de demanda”, destaca o presidente da FecoAgro-RS.
Para o produtor que busca manter a rotação de culturas no inverno — prática essencial para o controle de doenças e para a saúde do solo —, a canola surge como alternativa concreta ao trigo, especialmente nas regiões do Planalto Gaúcho e da Metade Sul, onde a oleaginosa já demonstrou adaptação agronômica e resposta produtiva consistente nas últimas safras.
O que o produtor gaúcho deve monitorar até a janela de semeadura
A decisão final sobre a área de trigo ainda não está encerrada para todos os produtores. A janela de semeadura do cereal no Rio Grande do Sul se estende de maio a julho, o que significa que variações nos preços dos insumos ou nas cotações do grão nas próximas semanas ainda têm capacidade de alterar o quadro. Contudo, o movimento já consolidado nas cooperativas e nas intenções declaradas pelos agricultores aponta para uma safra de inverno com perfil diferente do que se viu nos últimos anos.
O monitoramento semanal das cotações pelo Cepea e pela Emater/RS-Ascar, somado ao acompanhamento das variações no preço do diesel e dos fertilizantes nitrogenados — especialmente ureia e MAP, que concentram boa parte do custo da lavoura de trigo —, é o caminho mais direto para que o produtor tome uma decisão com base em dados, não em expectativa.
A safra de inverno de 2026 no Sul do Brasil será, acima de tudo, um teste de racionalidade econômica. Quem conseguir fazer a conta com precisão e flexibilidade para mudar de cultura quando necessário sairá em melhor posição ao final do ciclo.



