Reservatórios com água esverdeada, espuma na superfície e cheiro característico de decomposição orgânica são sintomas conhecidos de um problema silencioso que afeta milhares de corpos hídricos no Brasil: o excesso de fósforo e nitrogênio dissolvidos na água. Esses nutrientes chegam principalmente pelo escoamento agrícola, pelo lançamento de efluentes domésticos sem tratamento adequado e pela lixiviação do solo, e quando se acumulam além de determinados limites, desencadeiam um processo chamado eutrofização, que consome o oxigênio disponível, elimina espécies nativas e compromete o uso da água para irrigação, abastecimento e aquicultura.
Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) documentaram, em estudos de fitorremediação conduzidos em reservatórios do interior paulista, que uma planta flutuante amplamente distribuída nos ecossistemas aquáticos do país é capaz de reverter esse quadro em períodos inferiores a 30 dias. A espécie é a Salvinia molesta, conhecida popularmente como samambaia-de-água, e o mecanismo pelo qual ela atua vai muito além da simples absorção passiva de nutrientes.
Como a planta remove nutrientes da água
A Salvinia molesta pertence ao grupo das macrófitas aquáticas flutuantes, plantas vasculares que completam seu ciclo de vida na superfície da água sem precisar fixar raízes no sedimento. O que parece ser uma limitação estrutural é, na prática, uma vantagem metabólica: sem a mediação do solo, a planta acessa diretamente os nutrientes dissolvidos na coluna d’água por meio de estruturas filiformes que pendem abaixo de seus talos, funcionando como raízes altamente eficientes na captação de íons.
O fósforo é absorvido predominantemente na forma de fosfato inorgânico (PO₄³⁻), enquanto o nitrogênio entra na planta tanto como nitrato (NO₃⁻) quanto como amônio (NH₄⁺). Uma vez internalizados, esses compostos são incorporados à biomassa vegetal em proteínas, ácidos nucleicos e moléculas estruturais, o que significa que os nutrientes deixam efetivamente o sistema aquático e ficam retidos na matéria orgânica da planta. Esse é o princípio central da fitorremediação: ao invés de filtrar ou precipitar o contaminante, a planta o incorpora ao próprio tecido e o remove da água quando a biomassa é colhida.
Os estudos conduzidos pela UFSCar em reservatórios do estado de São Paulo registraram reduções de fósforo total de até 70% e de nitrogênio amoniacal acima de 60% em períodos que variaram entre 15 e 28 dias, a depender da densidade inicial do contaminante, da temperatura da água e da taxa de crescimento da planta. Em ambientes com alta disponibilidade de nutrientes, a Salvinia molesta pode dobrar sua biomassa em menos de uma semana, o que acelera proporcionalmente a velocidade de remoção.
“A eficiência da Salvinia molesta na absorção de nutrientes em condições de eutrofização está diretamente ligada à sua taxa de crescimento acelerado. Quanto maior o nível de contaminação, mais rápido a planta cresce, e mais rapidamente os nutrientes são incorporados à biomassa, criando um ciclo de biorremediação que se retroalimenta”, explica a professora Odete Rocha, do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da UFSCar, referência nacional em estudos sobre macrófitas aquáticas em reservatórios brasileiros.
A eutrofização que a planta combate — e pode causar
Aqui reside o paradoxo central da Salvinia molesta como ferramenta de gestão hídrica. A mesma característica que a torna eficaz na fitorremediação, sua capacidade de crescimento exponencial em ambientes ricos em nutrientes, também a transforma em uma das espécies aquáticas invasoras de maior impacto documentado no mundo, classificada pela IUCN entre as cem espécies invasoras mais problemáticas do planeta.
Quando a biomassa não é colhida periodicamente e a cobertura superficial ultrapassa determinado limiar, a planta passa de agente despoluidor a fator de degradação. Uma cobertura densa de Salvinia sobre a superfície de um reservatório bloqueia entre 95% e 99% da luz solar que chegaria às camadas mais profundas da água, inibindo a fotossíntese do fitoplâncton e das macrófitas submersas. Com a queda na produção de oxigênio pelas algas fotossintéticas, os níveis de oxigênio dissolvido despencam, gerando condições anóxicas que matam peixes, invertebrados aquáticos e toda a fauna dependente da oxigenação por difusão superficial.
Além do sombreamento, a decomposição da biomassa de Salvinia que morre e afunda libera de volta para a coluna d’água exatamente os nutrientes que a planta havia absorvido, reiniciando o ciclo de eutrofização e anulando o efeito remediador — ou piorando o quadro original.
“O potencial biorremediador da Salvinia molesta existe e é bem documentado, mas ele só se sustenta como solução quando inserido em um protocolo de manejo ativo que inclua monitoramento da cobertura superficial e colheita regular da biomassa antes que a planta entre em senescência. Sem esse controle, o que começa como solução termina como novo problema”, afirma o professor Sidinei Magela Thomaz, pesquisador da Universidade Estadual de Maringá e um dos principais especialistas em ecologia de macrófitas aquáticas da América do Sul.
A biomassa colhida tem destino produtivo
Um aspecto que torna o uso da Salvinia molesta especialmente interessante do ponto de vista econômico é que a biomassa colhida durante o processo de fitorremediação não precisa ser descartada como resíduo. Estudos mostram que a planta, rica em nitrogênio e fósforo incorporados ao seu tecido, tem alto potencial como insumo para compostagem e produção de biofertilizantes, fecha o ciclo dos nutrientes e agrega valor ao processo de despoluição.
Experimentos conduzidos em propriedades rurais do interior de São Paulo também testaram a incorporação de Salvinia desidratada em ração para peixes e gado, com resultados promissores em termos de aceitabilidade e composição nutricional, embora os protocolos ainda estejam em fase de validação para uso em escala comercial. De todo modo, o potencial existe e começa a ser mapeado como parte de uma lógica de economia circular aplicada ao manejo de corpos hídricos.
Aplicações reais e desafios de escala
A fitorremediação com macrófitas aquáticas já é utilizada em escala piloto em alguns municípios paulistas para tratar efluentes domésticos em lagoas de estabilização e para controlar a qualidade da água em represas de abastecimento. A Salvinia molesta não é a única espécie empregada nesse contexto — aguapés (Eichhornia crassipes) e taboa (Typha domingensis) também são utilizados com eficiência documentada, cada uma com características distintas de absorção e tolerância a diferentes tipos de contaminantes.
O que diferencia a Salvinia nesse grupo é a velocidade de resposta e a adaptabilidade a reservatórios de maior superfície, onde as macrófitas enraizadas perdem eficiência por não conseguirem cobrir grandes áreas. A planta flutuante, por se dispersar naturalmente pela superfície e crescer em qualquer ponto do espelho d’água, apresenta distribuição mais uniforme da capacidade de absorção, o que é especialmente relevante em lagos e represas de médio e grande porte.
O principal desafio para a adoção em larga escala permanece sendo a logística de colheita da biomassa e o custo operacional do monitoramento contínuo. Sem esses dois elementos funcionando de forma integrada, o potencial da técnica se converte em risco, e o que poderia ser uma solução de baixo custo para a despoluição de reservatórios agrícolas e urbanos passa a exigir intervenções corretivas muito mais caras.
A pesquisa da UFSCar representa um avanço concreto nessa direção ao documentar com precisão os limiares de concentração em que a planta opera com maior eficiência e os pontos críticos em que o manejo se torna indispensável. Com esses dados em mãos, gestores de bacias hidrográficas, produtores rurais com reservatórios próprios e prefeituras com sistemas de lagoas de tratamento passam a contar com um protocolo mais robusto para transformar a samambaia-de-água, uma das plantas mais comuns e subestimadas dos ecossistemas aquáticos brasileiros, em aliada real da qualidade hídrica.
Referências para consulta
Odete Rocha — UFSCar Perfil na Plataforma Lattes (CNPq): http://lattes.cnpq.br/ (buscar por “Odete Rocha” + UFSCar) Publicações indexadas: https://www.scielo.br (busca: “Salvinia molesta” + “fitorremediação” + “reservatórios”)
Sidinei Magela Thomaz — UEM Perfil ResearchGate: https://www.researchgate.net/profile/Sidinei-Thomaz Plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/ (buscar por “Sidinei Magela Thomaz”)
Sobre fitorremediação com macrófitas aquáticas no Brasil SciELO Brasil: https://www.scielo.br/j/hb/ (Acta Limnologica Brasiliensia — principal periódico nacional de limnologia) Portal de Periódicos CAPES: https://www.periodicos.capes.gov.br (busca: “Salvinia molesta phytoremediation Brazil”)
Classificação da Salvinia molesta como espécie invasora IUCN Invasive Species Specialist Group: https://www.iucngisd.org/gisd/species.php?sc=45




