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Brasil aposta na agricultura de baixo carbono para destravar negócios internacionais

Produtividade recorde sem expandir área plantada coloca país na vitrine global da sustentabilidade

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Brasil aposta na agricultura de baixo carbono para destravar negócios internacionais

O Dia do Agronegócio, celebrado em 25 de fevereiro, chega este ano com o setor assumindo um papel que vai além da produção de alimentos. O Brasil está usando a agricultura tropical como carta na manga nas negociações internacionais. A mensagem é clara: dá para produzir mais, emitir menos e ainda sequestrar carbono. Tudo isso sem derrubar mais mata.

O modelo brasileiro virou argumento técnico na COP 30 e nas tratativas do acordo Mercosul-União Europeia. Enquanto europeus e norte-americanos brigam com emissões vindas de combustíveis fósseis e transporte, o perfil brasileiro é outro. Aqui, o uso da terra sempre foi o vilão das contas de carbono. Mas o cenário mudou.

Tecnologia que limpa a conta do carbono

Plantio direto, fixação biológica de nitrogênio, integração lavoura-pecuária-floresta. Esses não são apenas nomes bonitos de técnicas agrícolas. São ferramentas que funcionam como sumidouros de carbono, puxando CO₂ da atmosfera e enterrando no solo. A terminação intensiva de gado a pasto e o uso crescente de bioinsumos completam o portfólio de práticas que dão músculo técnico ao discurso de sustentabilidade.

A matriz energética brasileira já tem 49% de fontes renováveis — o triplo da média mundial. Biomassa e biocombustíveis ajudam a fechar o ciclo, aproveitando resíduos que antes eram descartados. O aproveitamento econômico da palha, do bagaço e da vinhaça virou rotina em usinas e fazendas modernas.

“A consolidação desta agenda é vital para a competitividade brasileira em acordos como o Mercosul-União Europeia. Ao liderar a discussão, o Brasil combate barreiras comerciais unilaterais e se antecipa a exigências globais em comércio sustentável, o que demanda a implementação plena do Código Florestal e o combate rigoroso ao desmatamento ilegal”, avalia Fernando Sampaio, membro do Grupo Estratégico da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

O gargalo está na escala

O desafio não é técnico. As ferramentas existem. O problema é levar essas práticas para a maioria dos produtores. Pequenos e médios ainda encontram barreiras de acesso a crédito, assistência técnica e tecnologia. Enquanto grandes grupos já operam com agricultura de precisão e biológicos de última geração, boa parte do país ainda depende de modelos tradicionais.

Outro ponto crítico é a métrica. Os padrões internacionais medem carbono no solo apenas nos primeiros 20 centímetros de profundidade. No Brasil, as raízes das pastagens vão muito além disso. Em alguns sistemas, chegam a mais de 2 metros. Esse estoque de carbono existe, mas não entra na conta oficial.

“Os desafios estão em como ampliar o uso das práticas sustentáveis, o que demanda, de um lado mais produção e difusão de tecnologia e, de outro, mais investimentos chegando no campo”, analisa Sampaio. “Outro desafio está em mensurar a contribuição dessa agricultura para o clima. É preciso tropicalizar os fatores de emissão, e também rediscutir no cenário internacional como são feitas essas métricas.”

Produtividade sem derrubar floresta

A safra 2025/2026 deve bater 353,37 milhões de toneladas de grãos, segundo a Conab. A soja sozinha responde por 178 milhões de toneladas, alta de 3,8% sobre o ciclo anterior. Recorde. De novo. Mas o mais relevante não é o volume bruto. É a eficiência. O Brasil está produzindo mais por hectare, sem precisar abrir novas áreas.

Esse ganho de produtividade vem de melhoramento genético, manejo mais ajustado e uso racional de insumos. A área plantada cresce em ritmo bem menor que a produção. Isso mostra que o país tem margem para continuar alimentando o mundo sem pressionar a floresta.

O agronegócio responde por 23,2% do PIB nacional e 49% das exportações. Mas esses números carregam uma dependência perigosa: a reputação internacional. Qualquer deslize ambiental vira munição para barreiras não tarifárias. Por isso, manter a floresta em pé deixou de ser pauta de ambientalista e virou estratégia de mercado.

“Florestas em pé são essenciais para regular as chuvas que garantem a produtividade no campo. O equilíbrio do clima é condição vital para a produção agrícola e, por consequência, da segurança alimentar”, acrescenta Sampaio.

Políticas públicas no papel e na prática

O Plano ABC+ quer consolidar a agricultura de baixo carbono em mais de 72 milhões de hectares até 2030. O Caminho Verde mira na recuperação de 40 milhões de hectares de áreas degradadas nos próximos dez anos. São programas ambiciosos, com metas claras. O problema está na execução.

Crédito rural para práticas sustentáveis existe, mas a burocracia afasta parte dos produtores. Assistência técnica é desigual entre regiões. E a fiscalização para coibir o desmatamento ilegal ainda patina em áreas remotas. O Código Florestal está no papel, mas sua implementação completa depende de cadastramento, regularização fundiária e monitoramento efetivo.

Outro ponto estratégico é a remuneração por serviços ambientais. Produtores que mantêm florestas em áreas privadas prestam um serviço à sociedade, mas raramente recebem por isso. Mecanismos de pagamento por carbono e biodiversidade estão engatinhando no Brasil. Enquanto isso, em outros países, mercados regulados já remuneram quem sequestra carbono.

“Precisamos avançar em políticas públicas e ações privadas capazes de democratizar o acesso a tecnologias para pequenos e médios produtores. Mas também é preciso conter a ilegalidade, avançar na implementação do Código Florestal e na remuneração por ativos ambientais em áreas privadas”, ressalta Sampaio. “A consolidação dessa agenda agroambiental no país é um diferencial para garantir resiliência à nossa produção, atrair investimentos, ampliar mercados e mudar a imagem internacional da agricultura brasileira.”

Sobre a Coalizão Brasil

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento composto por mais de 400 organizações, entre entidades do agronegócio, empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia. A rede atua por meio de debates, análises de políticas públicas, articulação entre diferentes setores e promoção de iniciativas que contribuam para a conservação ambiental e o desenvolvimento socioeconômico do Brasil.

  • A Redação Agronamidia é composta por uma equipe multidisciplinar de jornalistas, analistas de mercado e especialistas em comunicação rural. Nosso compromisso é levar informações precisas, técnicas e atualizadas sobre os principais pilares do agronegócio brasileiro: da economia das commodities à inovação no campo e sustentabilidade ambiental. Sob a gestão da Editora CFILLA, todo o conteúdo passa por um rigoroso processo de curadoria e verificação de fatos, garantindo que o produtor rural e os profissionais do setor tenham acesso a notícias com alto valor estratégico e rigor técnico.

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