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Agro

Centro-Sul prepara safra recorde de cana com virada estratégica para biocombustível

Projeção de 629 milhões de toneladas vem acompanhada de mudança no destino da matéria-prima, com etanol ganhando espaço frente ao açúcar pressionado no mercado internacional

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Centro-Sul prepara safra recorde de cana com virada estratégica para biocombustível

O Centro-Sul do Brasil vai moer 629 milhões de toneladas de cana na safra 2026/27, segundo projeção da SCA Brasil. O número representa avanço de 3% sobre as 610 milhões de toneladas estimadas para o ciclo atual, que se encerra em março. Mais cana no campo, porém, não significa necessariamente mais açúcar no armazém.

A participação do açúcar na moagem total deve recuar de 51% para 48% na próxima temporada. A matéria-prima está sendo direcionada para o etanol, que apresenta melhor competitividade no mercado doméstico enquanto o açúcar enfrenta pressão nos preços internacionais.

Essa reorientação não é capricho gerencial. É resposta direta ao comportamento do mercado. Com o etanol valorizando na bomba e o açúcar pressionado lá fora, o cálculo ficou simples: produzir álcool virou melhor negócio para a usina.

A expectativa de maior oferta de cana sinaliza recuperação na disponibilidade agrícola após oscilações climáticas que marcaram safras recentes. Entretanto, o clima segue como a variável mais imprevisível do tabuleiro. Aliás, modelos meteorológicos já acendem o alerta para possível retorno do El Niño.

El Niño volta ao radar das usinas

O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico, interfere diretamente no regime de chuvas e temperaturas do Centro-Sul. Caso se confirme durante o desenvolvimento dos canaviais, pode comprometer tanto a produtividade quanto a qualidade da matéria-prima.

“O clima continua sendo o principal fator de risco para qualquer projeção de safra no setor sucroenergético. Tivemos anos de estresse hídrico severo e agora lidamos com a possibilidade de chuvas excessivas ou distribuição irregular”, explicou Arnaldo Luiz Corrêa, diretor da Archer Consulting, em recente análise para o mercado.

O impacto vai além do volume moído. A qualidade da cana define o rendimento industrial, ou seja, quanto de açúcar ou etanol cada tonelada vai entregar. Chuva na hora errada dilui o ATR (Açúcar Total Recuperável) e reduz a eficiência da usina.

Por outro lado, a janela de plantio está se consolidando em várias regiões produtoras, com áreas de renovação de canavial apresentando bom desenvolvimento inicial. Porém, o desafio logístico permanece como gargalo estrutural do setor.

Logística ainda pesa no custo final

Mesmo com volume maior de cana disponível, o escoamento da produção segue pressionado por deficiências na infraestrutura de transporte. A dependência do modal rodoviário encarece o frete e reduz a competitividade do produto brasileiro no mercado externo.

“A safra pode ser excelente no campo, mas se o custo Brasil continuar pesando na logística, parte dessa eficiência se perde no caminho até o porto”, avaliou Plinio Nastari, presidente da Datagro, durante evento setorial no início do ano.

O setor sucroenergético trabalha com margens apertadas. Cada real gasto a mais no transporte é um real a menos na rentabilidade da usina. Além disso, a competição com o milho na produção de etanol adiciona pressão extra ao planejamento das destilarias.

A próxima safra chega com expectativa de maior volume, mas também com interrogações climáticas e desafios estruturais que exigem atenção redobrada dos gestores. O mix mais alcooleiro é a aposta das usinas para atravessar um cenário de preços desafiador no açúcar internacional.

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