Natureza
Mais de 1,6 mil animais morrem atropelados por ano em única rodovia de Curitiba
Monitoramento da UFPR identificou pontos críticos de atropelamento e revelou que anfíbios representam 38% das vítimas no entorno do Parque Tingui
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O asfalto cobra um preço silencioso. Entre março de 2023 e fevereiro de 2025, pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) recolheram 235 carcaças de animais silvestres em apenas 5,1 quilômetros de rodovia no entorno do Parque Tingui, região de Santa Felicidade. A conta é brutal: estimativas indicam que mais de 1,6 mil animais podem estar morrendo atropelados anualmente nesse único trecho.
O levantamento faz parte do projeto de extensão Olha o Bicho, vinculado ao Laboratório de Biodiversidade, Conservação e Ecologia de Animais Silvestres (Labceas). Durante 44 expedições de campo, equipes de dois a quatro observadores percorreram ambos os lados da via, vasculhando pista, calçadas e margens. Cada carcaça encontrada virou dado: coordenadas geográficas, horário, identificação taxonômica e registro fotográfico entraram em um formulário online padronizado. Quando a espécie não podia ser confirmada em campo, as imagens seguiam para especialistas parceiros.
Sapos-cururu lideram as estatísticas de morte
Anfíbios responderam por 38% das carcaças coletadas. Na sequência vieram mamíferos (29%), aves (22%) e répteis (11%). Os sapos do gênero Rhinella, conhecidos como sapos-cururu, foram os mais atingidos. O porte reduzido dificulta a visualização pelos motoristas, mas o problema principal está nos deslocamentos sazonais para reprodução. Eles precisam cruzar a pista. E pagam caro por isso.
Entre as vítimas também apareceram gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita), tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), coruja-buraqueira (Athene cunicularia), teiú (Salvator merianae) e jararaca (Bothrops jararaca). A diversidade de espécies mostra que o problema não escolhe grupo taxonômico. Atinge quem transita entre fragmentos verdes e precisa atravessar o asfalto.
Software identifica onde o risco dispara
Henrique Gelinski, bacharel em Ciências Biológicas pela UFPR e integrante da equipe de campo, sistematizou parte dos resultados em sua monografia. Por meio do software Siriema, que analisa padrões espaciais de atropelamento, ele confirmou que as colisões não acontecem ao acaso. Existem pontos críticos.
As áreas de maior risco concentram-se próximas a corpos d’água, fundamentais para a reprodução de anfíbios. Trechos que margeiam condomínios residenciais, onde o tráfego local intensifica o fluxo de veículos, também aparecem no mapa vermelho. Além disso, segmentos com inclinação acentuada dificultam a frenagem e reduzem a visibilidade dos animais na pista. O motorista vê tarde demais.
O estudo ainda calculou que o tempo médio de permanência das carcaças na pista é de 9,05 dias. Esse dado ajuda a estimar as taxas reais de mortalidade e compreender a dinâmica dos atropelamentos no local. Afinal, nem toda carcaça fica visível tempo suficiente para ser contabilizada.
O problema extrapola o trecho monitorado
“O atropelamento pode ser uma das principais causas de mortalidade de fauna silvestre em áreas urbanas com presença de fragmentos verdes”, explica o docente Fernando de Camargo Passos, coordenador do Olha o Bicho. Em Curitiba, a proximidade entre vias de tráfego intenso e áreas naturais amplia o alcance do problema. O trecho estudado representa apenas uma fração da malha urbana. A cidade inteira convive com esse impasse.
Passos reforça que o diagnóstico contínuo e o engajamento da população são fundamentais para enfrentar a questão. Por isso, além de monitorar estradas, o projeto atua na mobilização comunitária. Postagens nas redes sociais, rodas de conversa, distribuição de folders e canais abertos via Instagram e WhatsApp conectam moradores aos dados científicos. Quem encontra uma carcaça ou identifica área de risco pode notificar a equipe pelo WhatsApp (41) 98883-1876.
Soluções existem, falta vontade política
Com os dados em mãos, é possível pensar intervenções práticas. Passarelas aéreas ou subterrâneas para animais, cercamentos direcionadores, redutores de velocidade e sinalização específica funcionam. A Ecologia de Estradas, campo estruturado desde os anos 1970 no hemisfério Norte, já testou essas medidas em larga escala. O conhecimento está disponível. Falta aplicá-lo.
Atualmente, o Olha o Bicho expandiu o monitoramento para um trajeto de 5,9 quilômetros na estrada de acesso ao Zoológico Municipal de Curitiba, no bairro Alto Boqueirão. A expectativa é mapear novos pontos críticos e pressionar por mudanças estruturais. Porque fragmentar habitats tem consequências. E o asfalto não deveria ser sentença de morte para quem só precisa atravessar a rua.
Fonte: ciencia.ufpr.br
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