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Pecuaria

Silagem mal calculada pode quebrar a fazenda antes da entressafra

Especialistas apontam alternativas ao milho e mostram como reduzir dependência de volumosos caros sem derrubar a produção

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Silagem mal calculada pode quebrar a fazenda antes da entressafra

A margem apertada virou rotina na pecuária de leite paranaense. Preço do litro achatado, ração nas alturas, e o produtor sem fôlego para investir em genética ou tecnologia. Nesse cenário, o planejamento forrageiro deixou de ser detalhe agronômico para virar questão de sobrevivência financeira. Quem chega em setembro sem saber o que vai oferecer para o rebanho já perdeu o jogo antes mesmo de começar a safra seguinte.

O alerta veio durante reunião da Comissão Técnica de Bovinocultura de Leite do Sistema FAEP, realizada no dia 24 de fevereiro. O docente da PUCPR, André Ostrensky, foi direto ao ponto: “O produtor fica tão envolvido na rotina da atividade que, às vezes, não planeja no longo prazo. Tem casos de pecuarista chegando em setembro, outubro sem saber o que vai fazer porque a silagem não vai dar. Isso compromete a rentabilidade da atividade”.

A fala expõe uma realidade incômoda. Muitos produtores ainda trabalham no operacional diário — ordenha, manejo sanitário, manutenção de equipamentos — mas negligenciam a visão estratégica do estoque forrageiro. Resultado: quando a silagem acaba, a saída é comprar volumoso no mercado spot, pagando preços inflacionados que destroem qualquer margem que ainda restava.

Milho ainda é rei, mas o trono balança

A silagem de milho continua sendo a opção de melhor custo-benefício para a pecuária de leite em larga escala. Com teor de amido entre 30% e 40%, ela sustenta vacas de alta produção sem exigir complementação energética agressiva no concentrado. Porém, a dependência exclusiva dessa forragem cria um risco: qualquer quebra de safra ou janela climática desfavorável pode comprometer todo o planejamento anual.

Por isso, diversificar o mix de volumosos não é luxo. É gestão de risco. A silagem de sorgo aparece como alternativa viável, especialmente em regiões com histórico de estiagem no verão. A cultura tolera melhor o estresse hídrico e tem custo de implantação inferior ao milho. Contudo, há um porém técnico: os grãos do sorgo são menores e mais duros, o que exige atenção redobrada no processamento durante a colheita. Se o grão não for bem triturado, a vaca não consegue digerir adequadamente, e o valor nutricional da silagem despenca.

Inverno produtivo: aveia e cevada entram no jogo

A entressafra sempre foi o calcanhar de Aquiles da pecuária de leite. Tradicionalmente, nesse período, o rebanho consome a silagem de milho estocada no verão, mas o volume raramente é suficiente para cobrir os meses de escassez forrageira. A solução? Produzir volumoso também no inverno.

Ostrensky detalhou a experiência da fazenda universitária da PUCPR com silagem de aveia. A estratégia tem sido incluir de seis a oito quilos dessa forragem na dieta diária das vacas, reduzindo a dependência da silagem de milho. O teor de amido da aveia é mais baixo — entre 10% e 12%, contra até 20% na cevada — mas a fibra de qualidade ajuda a manter a saúde ruminal e permite que o produtor economize no volumoso mais caro.

Essa abordagem exige planejamento. A cultura de inverno precisa ser semeada no outono, o que significa que o produtor deve tomar a decisão lá em março ou abril. Quem deixa para pensar nisso em junho já perdeu a janela de plantio e vai depender, novamente, de comprar volumoso de terceiros.

Decisão técnica, não achismo

Ágide Eduardo Meneguette, presidente do Sistema FAEP, reforçou a importância de levar conhecimento aplicado ao campo: “Iniciativas como essa palestra são fundamentais para levar conhecimento técnico ao produtor. Discutir alternativas e eficiência na gestão ajuda a mostrar caminhos dentro da propriedade”.

A fala resume o desafio: sair do achismo e entrar na gestão baseada em dados. Isso passa por renovar o rebanho com animais mais produtivos, calcular a necessidade real de volumoso por cabeça ao longo do ano, dimensionar corretamente a área de lavoura forrageira e, principalmente, não desperdiçar silagem por falta de controle na retirada do silo.

Cada quilo de silagem mal armazenado ou perdido por fermentação inadequada é dinheiro jogado fora. Em um cenário onde a margem já está apertada, essas perdas podem representar a diferença entre fechar o mês no azul ou no vermelho.

Fonte: Sistema Faep

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