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Veneno de vespa inspira pesquisa da UnB para tratamento do Alzheimer
Publicado
6 horas atrásem
Por
Claudio P. Filla
A busca por novos tratamentos para a Doença de Alzheimer tem levado pesquisadores a caminhos cada vez mais inovadores. Entre eles, a biodiversidade brasileira desponta como fonte promissora de compostos bioativos capazes de transformar o futuro da terapêutica neurológica. Na Universidade de Brasília (UnB), a professora e pesquisadora Luana Cristina Camargo coordena uma linha de investigação que utiliza peptídeos derivados do veneno de vespas sociais como base para o desenvolvimento de novos fármacos.
O estudo, iniciado ainda durante o mestrado da cientista, ganhou robustez ao longo de sua trajetória acadêmica internacional e hoje representa uma das frentes mais estratégicas na busca por alternativas terapêuticas que atuem diretamente na agregação da proteína β-amiloide, um dos principais marcadores patológicos da doença.
Da formação internacional à liderança científica
Bacharel em Ciências Biológicas pela UnB, Luana realizou parte da graduação na Universidade Drexel, nos Estados Unidos, como bolsista do programa Ciência Sem Fronteiras. Posteriormente, aprofundou sua formação no mestrado em Ciências da Saúde e no doutorado em Biologia pelo Instituto de Pesquisa de Jülich, na Alemanha, onde padronizou modelos transgênicos da Doença de Alzheimer e investigou propriedades farmacocinéticas de peptídeos desenvolvidos por técnicas avançadas de biotecnologia.
Ao relembrar sua trajetória, a pesquisadora destaca que “como bolsista do Ciência Sem Fronteiras, em 2013, estagiei no laboratório do professor Mikael Akins sobre doenças raras do neurodesenvolvimento”. Esse período marcou o início de um percurso que consolidaria sua atuação no campo da neurofarmacologia.
Durante o mestrado, sob orientação da professora Márcia Renata Mortari, Luana padronizou um modelo pré-clínico da doença induzido por β-amiloide e passou a investigar peptídeos sintéticos derivados do veneno de vespas sociais como alternativa terapêutica.
Octovespina: a molécula bioinspirada da vespa Polybia occidentalis
O principal foco atual da pesquisa é a avaliação da octovespina, um peptídeo bioinspirado na peçonha da vespa Polybia occidentalis. Desenvolvida inicialmente durante o mestrado, a molécula apresentou capacidade de inibir a agregação da β-amiloide em modelos experimentais, além de demonstrar melhora nos déficits cognitivos em camundongos quando administrada diretamente no cérebro.
Segundo Luana, “a principal linha envolve a avaliação de uma molécula bioinspirada da peçonha da vespa Polybia occidentalis, denominada octovespina”. Entretanto, os efeitos terapêuticos não foram reproduzidos quando a substância foi aplicada por via subcutânea, o que levou a equipe a investigar novas estratégias de administração.
A partir disso, passaram a estudar a aplicação intranasal e o desenvolvimento de nanoformulações capazes de otimizar a entrega do composto ao sistema nervoso central. Além disso, em parceria com o Instituto de Física da UnB, ferramentas de bioinformática vêm sendo empregadas para identificar novos alvos farmacológicos da octovespina, ampliando seu potencial terapêutico.
Desenvolvimento de novos compostos e redução do uso de animais
Além da octovespina, a pesquisadora avançou na criação de novos peptídeos com propriedades farmacocinéticas mais favoráveis. Durante o pós-doutorado, com bolsa da Capes/MEC, utilizou modelagens computacionais em parceria com a Universidade do Colorado para desenvolver compostos capazes de impedir a agregação da β-amiloide de forma mais eficiente.
Paralelamente, iniciou o desenvolvimento de um modelo de barreira hematoencefálica com células humanas imortalizadas, estratégia que busca reduzir o uso de animais em experimentação e otimizar a triagem de moléculas com potencial de atravessar o sistema nervoso central.
Com financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal, quatro novos compostos derivados de peptídeos naturais foram desenvolvidos e já apresentam resultados promissores em estudos in silico, avançando para fases não clínicas.
Impacto social e valorização da biodiversidade
Embora ainda em estágio pré-clínico, a pesquisa carrega implicações significativas. A Doença de Alzheimer representa um dos maiores desafios para os sistemas públicos de saúde, tanto pelo envelhecimento populacional quanto pelos custos associados ao tratamento e cuidado prolongado.
Luana acredita que “a pesquisa pode impactar a sociedade na redução de custos para o SUS, na valorização da biodiversidade brasileira e na melhoria da qualidade de vida por meio da disseminação de informações sobre fatores de risco”. Além disso, o uso sustentável de compostos derivados da fauna reforça a importância estratégica da preservação ambiental como fonte de inovação científica.
Ao integrar biodiversidade, biotecnologia e farmacologia de precisão, a pesquisa conduzida na UnB demonstra que soluções para doenças complexas podem surgir de caminhos inesperados — inclusive do veneno de uma vespa — desde que orientadas por rigor científico e visão de longo prazo.
Fonte: Agência Gov | via Capes

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